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Veja nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia o artigo do Dr. Paulo J. Moffa publicado em junho de 1979 e o comentário do Dr. João Tranchesi.
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Dr. Rafael Leite Luna que preparamos para você.
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  Arquivos Brasileiros de Cardiologia

 Entrevista

 

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Temos a honra, hoje, de receber o professor Rafael Leite Luna, ex-professor titular de cardiologia da PUC e do Instituto Carlos Chagas, Livre docente em Cardiologia pela UERJ, Fellowship em Cardiologia pela Universidade do Kansas, exerceu a chefia da cardiologia do Hospital do IASERJ nos anos 80 e 90, no momento áureo daquela instituição. Dr. Luna atuou como presidente eleito da SBC no período de 97 a 99. Durante a sua gestão, realizou o mais importante congresso que o nosso país albergou na área da Cardiologia, o Congresso Mundial de Cardiologia. E a sua passagem na Diretoria da SBC, foi bem marcada com a consolidação do Projeto da Informática, através do nosso Cardiol.br, o portal da Cardiologia Brasileira.

A implantação dos Cursos de Treinamento de ACLS e BLS sob a coordenação, na ocasião, do Dr. Sergio Timerman e, também, pela transformação dos Arquivos Brasileiros numa revista bilíngüe.

Eu, que presenciei aquele momento histórico, à frente do tempo, acompanhando esse espírito do Dr. Luna, de um empreendedor da cardiologia brasileira, sinto-me honrado com o convívio tido e a participação vivida. 

Dr. Luna, eu queria agradecer em nome da SBC a sua presença aqui, e gostaria de iniciar a entrevista pedindo-lhe lembranças de sua infância e adolescência, sua vida na sua comunidade, sua trajetória até a sua chegada aqui ao Rio de Janeiro e quais foram os marcos que os conduziram para a carreira de médico e de cardiologista.


Dr. Luna: Dr. Evandro, eu me sinto honrado com este convite e, na realidade, a vida toda tentei fazer uma cardiologia séria e produtiva e a Sociedade Brasileira de Cardiologia talvez, seja o que melhor alguém pode fazer.

Acho que a cardiologia brasileira, hoje, deve tudo o que é e tem, com uma posição importante no mundo graças à Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Atendendo seu pedido, nasci em 1932 em Penedo – Alagoas, uma cidade debruçada sobre o rio São Francisco, 30 kms da Foz. Eu ainda tenho uma irmã que mora lá, mas por falta de um ginásio no local, fui estudar no Colégio Jesuíta do Recife, o colégio Nóbrega, onde passei dez anos de minha existência e onde provavelmente tive as bases da minha vida. Os padres Jesuítas eram padres educados na Europa, e para se ter uma idéia, o meu professor de inglês vinha de Cambridge, o de francês, da Sorbonne, o de Química e de Física, da Haubold na Alemanha, de forma que o que adquiri, devo muito ao Colégio Nóbrega. Quando saí de lá eu entendia muito bem o francês. Cheguei ao Rio em 29/12/1949, fiz o vestibular no dia 5/1/1950 e passei numa colocação muito boa, cursando a faculdade em seguida.

Como um estranho no ninho, os meus primeiros anos na faculdade foram difíceis, os anos do ciclo básico. Mas aí eu tive uma sorte de alguém me indicar para fazer clínica médica no Hospital Moncorvo Filho, no serviço do grande mestre Caprileoni.
 
Existia um homem excepcional, ao qual não é dado crédito no Rio de Janeiro, chamado Jose Scherman que era o professor e o fundador da Endocrinologia. Esse médico, muito querido, viu talvez alguma vantagem em me orientar, o que fez no 3º e 4º ano. Passei dois anos fazendo clínica médica de uma maneira sistematizada, organizada, 3 meses em gastrologia, 4 meses em cardiologia, 2 meses em radiologia e isso tudo com pessoas que, na década de 70 e 80, estavam no topo da cardiologia brasileira, como o Dr. Nelson Botelho Reis, Dr. Paulo Schlesinger, Dr. Emilio Amorin, Dr. Fernando Duque, Dr. Julio de Moraes, o próprio Dr. Scherman da Endocrinologia, de forma que tive uma formação médica muito boa, a ponto de nos anos seguintes fazer concurso como acadêmico de medicina para os hospitais do pronto-socorro no Rio de Janeiro, ser bem classificado para a Santa Casa de Misericórdia. E na Santa Casa eu tive a felicidade de ganhar uma bolsa para os Estados Unidos em um hospital filiado à Universidade de Harvard em Boston.

Foi uma coisa que me caiu no colo, porque eu fiz o concurso e um dia um médico da Santa Casa me disse: Você é o Luna? Eu disse: "- Eu sou o Luna".

Na realidade eu me formei em 55 e, logo em seguida, segui para os Estados Unidos, para o Hospital São Lucas, em New Bedford, perto de Boston, onde eu passei dois anos; um ano como interno e um na clínica médica, em medicina interna. Nós tínhamos 18 residentes do 1º ano, 12 do 2º e, verdadeiramente, o melhor ficava para chefe da residência. Dos 18 para os 12 eu sobrei, porque na realidade eles tinham muito mais conhecimento apesar, do meu bom nível de clínica médica. Eu citei que eu queria fazer cardiologia e gostaria, aqui, de falar sobre algumas pessoas que me influenciaram a minha carreira. Eu tive um primo muito querido, chamado Jose Correia, meu pai ficou órfão aos 2 anos e eu hoje gosto muito de honrar a minha família. Minha avó morreu com 32 anos no 3º parto com estenose mitral, uma doença, que, hoje em dia, é curada em 10 minutos com um balãozinho.

Meu pai foi criado pela irmã mais velha, tia Zefinha, que tinha um filho um pouco mais novo do que papai, o nosso Zé Correia. E esse homem, com a minha tia Zefinha, ajudaram papai.

Na criação dele, tia Zefinha passou por dificuldades financeiras e papai ajudou esse nosso primo Zé Correia que na vida toda esteve ligado a papai, e esse colega se formou em medicina. Esse primo, homem admirável, fez clínica médica, um pouco de cirurgia, tornando-se o que hoje em dia chamamos de médico de família. Fez também radiologia, no seu início, pagando caro na especialidade porque as pessoas, naquela época, pouco se protegiam e ele morreu, precocemente, com um câncer ósseo, provavelmente, estimulado pela dose de radiação que o atingia, principalmente nas pernas, já que o câncer começou no fêmur.

A outra pessoa que tenho de agradecer é o professor Nelson Botelho Reis, alguém que o Rio de Janeiro também homenageia, e foi o homem no Moncorvo Filho em 1954 que me disse: - Luna, "as doenças de coração que não eram conhecidas há dez anos, hoje, conhecemos o mecanismo", frase do Dr. Nelson que me criou um grande entusiasmo pela cardiologia, pois em nenhuma outra matéria em medicina, o avanço na década de 40 foi tão grande, como no esclarecimento das cardiopatias, o que me levou a definir antes mesmo de ir para os Estados Unidos, a decisão de fazer cardiologia.

Quando ainda no São Lucas e tendo pertencido à Universidade de Harvard, a procura de um outro serviço, e recebi convite de 60 universidades americanas.

Mas tornei-me exigente e pedi que depois de fazer mais um ano de medicina interna queria fazer dois anos de cardiologia. E duas universidades abriram as portas, uma a Universidade da Pensilvânia e, a outra, a Universidade de Kansas e, por influência de um colega nosso, que morreu esquecido há poucos meses, o Dr. Paulo Schlesinger, optei pela Universidade de Kansas, onde havia um médico, o Dr. Igrey Daimon, estrela da cardiologia em 1957. Lembro ainda o professor Luiz Caprioni, falecido em 1954, cuja cadeira, um primor de organização devido ao Dr. Jose Scherman, apesar de desfeita, por uma dessas sortes da vida, levou-me às mãos do professor Magalhães Gomes, tornando-me o primeiro interno dele na faculdade. Meu desejo e gosto pela cardiologia foi sedimentado pelo professor Magalhães Gomes que não possuía a organização do professor Caprioni mas era um didata excelente. Falando em insuficiência cardíaca, suas mãos falavam por si só. E sedimentou nos meses que eu passei por ele os meus conhecimentos de cardiologia. Na equipe, havia pessoas que tinham feito eletrocardiografia no México, desenvolvendo meu amor muito grande pela eletrocardiografia.

Ainda em Harvard, iniciou-se a transição da medicina, surgindo a hemodinâmica, onde participei, juntamente com a eletrocardiografia, a vedete do ano, de milhares de exames nos EUA e, mais tarde, no Brasil, com Dr. Nelson Botelho Reis. Já em Kansas, com o Dr. Delke, pude opinar sobre um eletro típico de atrioventricularis comunis, não valorizado na ocasião, mas muito destacado, algumas semanas depois, permitindo que Dr. Dexte me elgesse comentarista de todos os cardiogramas, abrindo minha carreira na Universidade de Kansas. Fiz mais esse ano de clínica médica e mais dois anos de cardiologia com o Dr. Daimon, ainda vivo, com 84 anos e que me deu grande ajuda.

Já no fim do meu estágio em cardiologia, os Fellows tinham que passar 3 meses no hospital dos veteranos, eles chamam de View Hospital, são hospitais ligados a universidades. Eu me lembro bem que no fim de agosto eu já estava no fim do meu estágio e uma madrugada fui acordado e o residente da medicina disse: – Dr. Luna, o senhor está de plantão na cardiologia, desça aqui que eu estou com um caso de estenose mitral que está com emoptise. Eu desci logo e era uma moça de 29 anos e estava sentada; coloquei meu estetoscópio acampando na ponta do coração e não vi nenhum ruflar, eu ia deitá-la quando ela tossiu, teve uma vomica com sangue no meu rosto e eu lavei o rosto, a deitei e disse: – isso não é uma estenose mitral, mande fazer uma radiografia. E realmente eu fui acompanhando a radiografia e ela estava com caverna. Mas, eu estou contando essa história porque no dia 31/12/1959, eu estava me preparando para o reveillon vestindo o meu smoking, quando o Dr. Damon me tocou e disse (ele me chamava de Ralf): – Ralf, você vai ser internado, você está com uma infiltração do pulmão, (alguns dias antes eu havia dito a ele que estava cansado e com um pouco de febre) e ele me mandou fazer uma radiografia, e lá estava uma infiltração da tuberculose que eu adquiri uns meses antes examinando aquela menina que estava também com tuberculose pulmonar.

Eu fui para o hospital muito triste, estava no fim do meu estágio de cardiologia, mas na realidade o Dr. Daimon já tinha uma grande amizade por mim e a primeira coisa que ele fez, já que me viu muito deprimido, nós vamos fazer um livro em eletrocardiografia para os alunos. Esse livro se chamou Sylabus of electrocardiography. Esse livro eu publiquei com o Dr. Daimon e com o Dr. Paulo Schlesinger e vendemos 43 mil, foi um best seller em eletrocardiografia e foi o meu primeiro livro em eletrocardiografia.

Mas antes de prosseguir eu gostaria de dizer que naqueles anos já tinha sido descoberta a vacina para a poliomielite nos EUA. Dr. Sol havia sido endeusado em San Diego na Califórnia, porque 400 mil crianças americanas ficavam aleijadas por ano devido à poliomielite. Em um ano, os Estados Unidos tinham 120 laboratórios fazendo vacina para a pólio, com alguns acidentes, causados pelo um excesso de convites para esse laboratório.

Mas o Dr. Sol, que dois ou três anos depois, ele reuniu 480 milhões de dólares e que era muito dinheiro naquela época nos Estados Unidos. Um carro novo custava 2.500 dólares naquele tempo.
 
Quando eu fui para o São Lucas ganhava 25 dólares por mês. Já em Kansas, no 1º ano ganhava, primeiro 100, aumentando mais tarde porque comecei a fazer muito trabalho científico. Quando saí de Kansas, já ganhava 400 dólares por mês. Mas em janeiro, enquanto eu estava internado, o Dr. Daimond foi convidado para dirigir a cardiologia num hospital modelo em San Diego, o Hospital do Dr. Sol, um pequeno hospital de vírus, com as grandes ofertas de dinheiro; os Grants que ele recebeu ele criou um hospital geral de medicina, evidentemente com muita ênfase em virologia. Ele convidou o Dr. Daimond para ser o chefe da cardiologia, e a primeira pessoa convidada pelo Dr. Daimond fui eu.

Quando melhorei da tuberculose me mudei para a Califórnia, em um subúrbio chamado San Diego. O hospital se chama Screeps Clinic porque Mr Screeps deu 50 milhões de dólares.

Tudo era novo em folha, tudo era do mais moderno. Eu me lembro que tinha um apartamentozinho e da minha janela ao fundo eu via a praia do Pacífico e da minha janela à frente com a distância de 80 Km nos dias de sol eu via picos nevados. É a cidade mais incrível, o subúrbio de San Diego é o lugar mais incrível que possamos pensar em matéria de dinheiro. Só tinha milionários. E então surgiram as novidades. O Presidente Juscelino Kubitschek tinha assumido o Brasil e papai me dizia: "– Volte pro Brasil que o Brasil vai progredir! 50 anos em 5!"

"– Volte para cá porque na década de 90, segundo promessas do presidente, seremos iguais aos países do sul da Europa, como a Espanha e a Itália. Venha construir este Brasil."

Eu me encontrei em um congresso americano com alguns brasileiros e ouvi dizer que o IASERJ havia aberto concurso para cardiologista e estava procurando um cardiologista que soubesse hemodinâmica.
E essas duas coisas e mais o momento nos Estados Unidos onde eu não via nenhuma chefia na mão de um estrangeiro me fizeram desistir da Screeps Clinic, que já estava naquela época afiliada a Universidade da Califórnia.

Seguindo as suas seis perguntas, eis mais ou menos a minha vida inicial. 

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