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Dr.
Evandro Tinoco Mesquita:
É uma honra estar conduzindo esta segunda
entrevista, e hoje aqui entre nós, o Professor
Stans Murad Netto, capixaba, filho de libaneses,
livre docente em Cardiologia pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro, professor titular e
fundador do Curso de Pós-graduação em
Cardiologia do Instituto de Pós-graduação
Médica do Rio de Janeiro.
Professor
Murad tem contribuído para a Cardiologia
Brasileira e Mundial através do seu papel como
professor e educador visionário e também como o
primeiro a descrever o espasmo coronariano e um
dos pioneiros no emprego na
cine-angiocoronariografia no Brasil.
O
Professor Murad tem contribuído no dia a dia para
o desenvolvimento da cardiologia e,
principalmente, com a sua mente arguta, buscado um
entendimento da doença cardiovascular e
principalmente os novos horizontes. Vem
trabalhando atualmente em cooperação com um
grupo argentino no desenvolvimento de
células-tronco no Infarto Agudo do Miocárdio.
Professor
Murad, a minha primeira pergunta diz respeito a
sua infância e adolescência. Como foram os
primeiros anos de sua vida, o que marcou? Já que
o senhor é filho de libaneses, de uma família
tradicional no Espírito Santo?
Dr
Murad:
Primeiramente, o meu agradecimento muito grande ao
Professor Evandro Tinoco que é uma das figuras
mais destacadas na Cardiologia no Rio de Janeiro e
no Brasil. Figura extraordinária, de alto
conhecimento profissional e que vários concursos
ele tem feito e realizado, e todos os que eu pelo
menos conheci, o Evandro passou em primeiro lugar.
Um outro importante aspecto do Evandro que estamos
precisando muito neste país é a tendência a
união entre os cardiologistas. Essa sensibilidade
de juntar para desenvolver. Eu trago isso dos
Estados Unidos, em que todas as pessoas de
destaque no mundo, os americanos levaram para a
América. Então, eles ganham o profissional com
30 ou 40 anos já pronto, e que o país de origem
perde como nós perdemos vários que ficaram na
América.
Esse
convite que o Evandro me fez me trouxe uma pequena
preocupação. Ele quer eu eu fale sobre a minha
vida, sobre a minha biografia. É difícil a gente
falar da vida da gente e depois dá uma impressão
assim que... biografia se faz depois de morto. É
uma coisa que me preocupa. Mas, a convite do
professor Evandro, a gente não pode negar.
Meus
pais eram pobres. Meu pai veio do Líbano com
vinte e poucos anos de idade e foi camelô no
Espírito Santo durante muitos anos.
Nós
morávamos em Itapina, que é uma cidade no
interior do Espírito Santo, onde eu nasci, depois
quando eu estava com sete anos de idade, eu tinha
necessidade de prosseguir meus estudos e então
fomos para Colatina, que é uma cidade um pouco
maior e que tinha um ginásio onde eu pude fazer o
meu curso ginasial na época.
Depois eu fui para Vitória porque lá não tinha
o terceiro grau, não tinha científico. Tive que
ir para Vitória para continuar os meus estudos.
Foi
uma infância como toda pessoa que sem condições
econômicas assim das melhores, a gente pode
compreender e todos podem também compreender por
todas as dificuldades porque a gente passa.
Eu
vim para Vitória, fiz os dois anos em Vitória do
científico, e ele (meu pai) um dia me convidou
para dar uma volta numa praça lá e perguntou o
que eu queria fazer. Se eu queria continuar
trabalhando no comércio com ele, ele tinha uma
casa comercial ou fazer Medicina. Eu sempre falava
em Medicina, eu disse: eu quero estudar.
Então,
no terceiro ano eu vim para o Rio de Janeiro fazer
o terceiro ano científico e o "cursinho
pré-vestibular".
Dr.
Evandro Tinoco Mesquita:
Murad, o que marcou na sua infância e
adolescência no convívio com seus pais e
irmãos? Quais foram as mensagens que essa
família de libaneses passou para você?
Dr
Murad:
A primeira e mais importante. Meu pai dizia:
"Vende tudo, fica de cueca, mas seja
honrado!". Só isso.
Dr.
Evandro Tinoco Mesquita:
quer dizer, era uma família bastante unida, não
é Murad? Você teve quantos irmãos?
Dr.
Murad:
Muito unida! Nós éramos sete. Um foi assassinado
aqui no Rio de Janeiro, ele era tenente-coronel da
Polícia Militar e reagiu a um assalto e foi
assassinado.
Dr.
Evandro Tinoco Mesquita:
E os outros?
Dr.
Murad:
Victor Murad é professor da Faculdade de
Medicina, ele era professor das duas faculdades de
Medicina em Vitória, Professor de Cardiologia. O
Victor foi presidente da Sociedade de Cardiologia
do Espírito Santo durante, creio que 15 ou 16
anos. E hoje ele aposentou-se pela Federal e
continua na Faculdade de Medicina da Santa Casa (EMESCAM)
como professor.
Tenho
duas irmãs, uma professora e outra arquiteta, e
dois irmãos engenheiros, um que foi o
responsável pela estrutura extraordinária que a
gente tem na sede do Instituto de Pós-graduação
Médica do Rio de Janeiro na Barra da Tijuca.
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Dr.
Evandro Tinoco Mesquita:
O que que fez esse jovem Stans Murad Netto pensar
em ser médico? Isso é normalmente uma
circunstância ou o exemplo de um médico que leva
os indivíduos mais jovens a esse caminho.
O
que fez você procurar a profissão de médico?
Dr.
Murad:
Numa cidade do interior, as pessoas importantes
lá são o padre e o médico. E todo mundo
respeita o padre e o médico. E naquela época
muito mais do que agora. Uma vez eu me lembro que
tive uma febre muito alta com uns calafrios e
fiquei muito preocupado com medo de morrer. Meu
pai chamou um médico e chegou um profissional
todo de branco. De linho branco, uma figura que
dava a impressão de um santo ter chegado. E eu
comecei a melhorar logo na chegada dele. Parei de
tremer (risos), e com os primeiros comprimidos eu
já na tinha mais nada. Então, aquilo me
impressionou. Impressionava a todos nós, a quem
veio do interior, que como eu disse, só essas
figuras se destacavam. E eu gostei de medicina, eu
queria ser médico. Também acredito que a
sensibilidade da gente ajuda a que você escolha a
medicina como profissão.
Dr.
Evandro Tinoco Mesquita:
Bem, meu amigo, você chegou ao Rio de Janeiro
jovem, a cidade era a capital federal e ingressou
na famosa Faculdade Nacional de Medicina. Eu ia
fazer uma pergunta muito interessante, porque hoje
o prédio da Faculdade Nacional de Medicina na
Praia Vermelha não está mais presente entre
nós. Mas, muitos colegas que viveram aquela
época guardam emoções, imagens... Eu lhe
perguntaria, quais são as imagens e sensações
que você guarda desse seu período intenso de
descoberta como aluno na Praia Vermelha?
Dr
Murad:
Isso foi um dos momentos marcantes na minha vida
porque você pode imaginar uma pessoa vir do
interior, chegar ao Rio de Janeiro sem conhecer
nada, sozinha, fazer o cursinho. Estudei muito.
Sempre estudei bastante, entende? Acho difícil
que uma daquelas vagas não me pertencesse, eu
estudei bastante, não havia condição. E uma das
maiores emoções da minha vida foi depois daquele
concurso, que foi um verdadeiro funil, sempre é.
É muito difícil! É muita gente disputando uma
vaga. E eu só fiz a prova para a Nacional de
Medicina. Não tinha dinheiro para pagar uma
escola particular.
E
quando eu passei no concurso e entrei no primeiro
ano, a emoção foi muito grande. Você vem lá do
interior de uma cidade pequena, chega ao Rio de
Janeiro e consegue entrar na Faculdade Nacional de
Medicina, que na época era uma das maiores
escolas, uma das mais importantes do Brasil
inteiro.
Eu
não ouvia falar em quase nenhuma outra Escola de
Medicina, essa escola era a da Praia Vermelha, a
famosa Escola Médica da Praia Vermelha. Foi uma
emoção grande a minha entrada na escola.
E
lá eu continuei estudando muito, ficava o tempo
todo naquela anatomia. Pra você ter idéia,
Evandro, sem querer me vangloriar nem querer
enaltecer nada, o ano mais difícil da escola
sempre foi o terceiro ano, que tinha Farmacologia,
Clínica Médica, uma série de disciplinas mais
difíceis, a minha menor nota foi nove. Eu tirei
10 nas duas provas de Parasitologia, com uma
menção na prova de Parasitologia feita pelo
Professor Fialho na época. Que aquela prova tinha
sido feita por alguém em nível acima daquele
período da vida escolar.
Isso
sempre foi um prazer muito grande, depois o que
marcava naquela época é que a Medicina era mais
de Semiologia. A gente era exercitado a fazer o
diagnóstico, nós não tínhamos, a não ser o
eletrocardiógrafo e o aparelho de Raio X. Você
não tinha eco, não tinha hemodinâmica, não
tinha tomografia, não tinha ressonância, não
tinha nada. Não tinha unidade coronária. Você
tinha que exercitar os seus cinco sentidos no
sentido de fazer o diagnóstico dos doentes. E
tratá-los, com pouca ou nenhuma droga, que eu me
lembre, quando me formei você tinha nitrito de
amilo, diurético mercurial, os bloqueadores
ganglionares com aquele desastre todo que a gente
conhece, tinha a quinidina. Depois veio o
peritrate, pentanitrato de tetraeritrol que marcou
como se fosse uma solução para a angina do
peito. Depois veio unidade coronária, começou a
vir o resto da Medicina atual. Eu acho que a
Medicina tem menos de cem anos. Antes acho que foi
uma coisa que lembra espiritismo, não existia
Medicina científica antes dos cem anos. Claro que
havia vacinação e aquelas coisas, mas a grande
Medicina, a Medicina Moderna tem cem anos pra mim.
Dr.
Evandro Tinoco Mesquita:
E quais foram os professores naquela ocasião, no
convívio da Faculdade de Medicina na Praia
Vermelha e também nos estágios em que os alunos
rodavam como a Santa Casa de Misericórdia,
Moncorvo Filho. Que professores impressionavam
aquele jovem Murad ainda construindo a sua
formação como médico?
Dr.
Murad:
Como eu disse a você, naquela época o que
existia, era aquela Medicina Clínica, o
cardiologista era um clínico. Não existia nada
mais. Então, o maior destaque de toda a minha
vida profissional foi o Professor Magalhães
Gomes. Um homem muito inteligente, culto, além de
uma cultura médica impressionante, era muito
estudioso e tinha uma cultura geral, que era uma
coisa presente entre os médicos naquela época.
Eles tinham cultura geral, eles tinham noções de
várias coisas fora da parte médica. O segundo
professor que foi importante na minha vida foi o
Professor Feijó, esses foram os dois maiores
cardiologistas clínicos.
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