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Veja nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia o artigo do Dr. Adib D. Jatene publicado em 1975 e o comentário do Dr. Valter Gomes.
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Prof. Stans Murad Netto que preparamos para você.
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  Arquivos Brasileiros de Cardiologia

 Entrevista

 

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: É uma honra estar conduzindo esta segunda entrevista, e hoje aqui entre nós, o Professor Stans Murad Netto, capixaba, filho de libaneses, livre docente em Cardiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor titular e fundador do Curso de Pós-graduação em Cardiologia do Instituto de Pós-graduação Médica do Rio de Janeiro.

Professor Murad tem contribuído para a Cardiologia Brasileira e Mundial através do seu papel como professor e educador visionário e também como o primeiro a descrever o espasmo coronariano e um dos pioneiros no emprego na cine-angiocoronariografia no Brasil.

O Professor Murad tem contribuído no dia a dia para o desenvolvimento da cardiologia e, principalmente, com a sua mente arguta, buscado um entendimento da doença cardiovascular e principalmente os novos horizontes. Vem trabalhando atualmente em cooperação com um grupo argentino no desenvolvimento de células-tronco no Infarto Agudo do Miocárdio.

Professor Murad, a minha primeira pergunta diz respeito a sua infância e adolescência. Como foram os primeiros anos de sua vida, o que marcou? Já que o senhor é filho de libaneses, de uma família tradicional no Espírito Santo?

Dr Murad: Primeiramente, o meu agradecimento muito grande ao Professor Evandro Tinoco que é uma das figuras mais destacadas na Cardiologia no Rio de Janeiro e no Brasil. Figura extraordinária, de alto conhecimento profissional e que vários concursos ele tem feito e realizado, e todos os que eu pelo menos conheci, o Evandro passou em primeiro lugar. Um outro importante aspecto do Evandro que estamos precisando muito neste país é a tendência a união entre os cardiologistas. Essa sensibilidade de juntar para desenvolver. Eu trago isso dos Estados Unidos, em que todas as pessoas de destaque no mundo, os americanos levaram para a América. Então, eles ganham o profissional com 30 ou 40 anos já pronto, e que o país de origem perde como nós perdemos vários que ficaram na América.

Esse convite que o Evandro me fez me trouxe uma pequena preocupação. Ele quer eu eu fale sobre a minha vida, sobre a minha biografia. É difícil a gente falar da vida da gente e depois dá uma impressão assim que... biografia se faz depois de morto. É uma coisa que me preocupa. Mas, a convite do professor Evandro, a gente não pode negar.

Meus pais eram pobres. Meu pai veio do Líbano com vinte e poucos anos de idade e foi camelô no Espírito Santo durante muitos anos.

Nós morávamos em Itapina, que é uma cidade no interior do Espírito Santo, onde eu nasci, depois quando eu estava com sete anos de idade, eu tinha necessidade de prosseguir meus estudos e então fomos para Colatina, que é uma cidade um pouco maior e que tinha um ginásio onde eu pude fazer o meu curso ginasial na época. Depois eu fui para Vitória porque lá não tinha o terceiro grau, não tinha científico. Tive que ir para Vitória para continuar os meus estudos.

Foi uma infância como toda pessoa que sem condições econômicas assim das melhores, a gente pode compreender e todos podem também compreender por todas as dificuldades porque a gente passa.

Eu vim para Vitória, fiz os dois anos em Vitória do científico, e ele (meu pai) um dia me convidou para dar uma volta numa praça lá e perguntou o que eu queria fazer. Se eu queria continuar trabalhando no comércio com ele, ele tinha uma casa comercial ou fazer Medicina. Eu sempre falava em Medicina, eu disse: eu quero estudar.

Então, no terceiro ano eu vim para o Rio de Janeiro fazer o terceiro ano científico e o "cursinho pré-vestibular".

 

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Murad, o que marcou na sua infância e adolescência no convívio com seus pais e irmãos? Quais foram as mensagens que essa família de libaneses passou para você?

Dr Murad: A primeira e mais importante. Meu pai dizia: "Vende tudo, fica de cueca, mas seja honrado!". Só isso.

 

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: quer dizer, era uma família bastante unida, não é Murad? Você teve quantos irmãos?

Dr. Murad: Muito unida! Nós éramos sete. Um foi assassinado aqui no Rio de Janeiro, ele era tenente-coronel da Polícia Militar e reagiu a um assalto e foi assassinado.

 

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: E os outros?

Dr. Murad: Victor Murad é professor da Faculdade de Medicina, ele era professor das duas faculdades de Medicina em Vitória, Professor de Cardiologia. O Victor foi presidente da Sociedade de Cardiologia do Espírito Santo durante, creio que 15 ou 16 anos. E hoje ele aposentou-se pela Federal e continua na Faculdade de Medicina da Santa Casa (EMESCAM) como professor.

Tenho duas irmãs, uma professora e outra arquiteta, e dois irmãos engenheiros, um que foi o responsável pela estrutura extraordinária que a gente tem na sede do Instituto de Pós-graduação Médica do Rio de Janeiro na Barra da Tijuca.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: O que que fez esse jovem Stans Murad Netto pensar em ser médico? Isso é normalmente uma circunstância ou o exemplo de um médico que leva os indivíduos mais jovens a esse caminho.

O que fez você procurar a profissão de médico?

Dr. Murad: Numa cidade do interior, as pessoas importantes lá são o padre e o médico. E todo mundo respeita o padre e o médico. E naquela época muito mais do que agora. Uma vez eu me lembro que tive uma febre muito alta com uns calafrios e fiquei muito preocupado com medo de morrer. Meu pai chamou um médico e chegou um profissional todo de branco. De linho branco, uma figura que dava a impressão de um santo ter chegado. E eu comecei a melhorar logo na chegada dele. Parei de tremer (risos), e com os primeiros comprimidos eu já na tinha mais nada. Então, aquilo me impressionou. Impressionava a todos nós, a quem veio do interior, que como eu disse, só essas figuras se destacavam. E eu gostei de medicina, eu queria ser médico. Também acredito que a sensibilidade da gente ajuda a que você escolha a medicina como profissão.

 

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: Bem, meu amigo, você chegou ao Rio de Janeiro jovem, a cidade era a capital federal e ingressou na famosa Faculdade Nacional de Medicina. Eu ia fazer uma pergunta muito interessante, porque hoje o prédio da Faculdade Nacional de Medicina na Praia Vermelha não está mais presente entre nós. Mas, muitos colegas que viveram aquela época guardam emoções, imagens... Eu lhe perguntaria, quais são as imagens e sensações que você guarda desse seu período intenso de descoberta como aluno na Praia Vermelha?

Dr Murad: Isso foi um dos momentos marcantes na minha vida porque você pode imaginar uma pessoa vir do interior, chegar ao Rio de Janeiro sem conhecer nada, sozinha, fazer o cursinho. Estudei muito. Sempre estudei bastante, entende? Acho difícil que uma daquelas vagas não me pertencesse, eu estudei bastante, não havia condição. E uma das maiores emoções da minha vida foi depois daquele concurso, que foi um verdadeiro funil, sempre é. É muito difícil! É muita gente disputando uma vaga. E eu só fiz a prova para a Nacional de Medicina. Não tinha dinheiro para pagar uma escola particular.

E quando eu passei no concurso e entrei no primeiro ano, a emoção foi muito grande. Você vem lá do interior de uma cidade pequena, chega ao Rio de Janeiro e consegue entrar na Faculdade Nacional de Medicina, que na época era uma das maiores escolas, uma das mais importantes do Brasil inteiro.

Eu não ouvia falar em quase nenhuma outra Escola de Medicina, essa escola era a da Praia Vermelha, a famosa Escola Médica da Praia Vermelha. Foi uma emoção grande a minha entrada na escola.

E lá eu continuei estudando muito, ficava o tempo todo naquela anatomia. Pra você ter idéia, Evandro, sem querer me vangloriar nem querer enaltecer nada, o ano mais difícil da escola sempre foi o terceiro ano, que tinha Farmacologia, Clínica Médica, uma série de disciplinas mais difíceis, a minha menor nota foi nove. Eu tirei 10 nas duas provas de Parasitologia, com uma menção na prova de Parasitologia feita pelo Professor Fialho na época. Que aquela prova tinha sido feita por alguém em nível acima daquele período da vida escolar.

Isso sempre foi um prazer muito grande, depois o que marcava naquela época é que a Medicina era mais de Semiologia. A gente era exercitado a fazer o diagnóstico, nós não tínhamos, a não ser o eletrocardiógrafo e o aparelho de Raio X. Você não tinha eco, não tinha hemodinâmica, não tinha tomografia, não tinha ressonância, não tinha nada. Não tinha unidade coronária. Você tinha que exercitar os seus cinco sentidos no sentido de fazer o diagnóstico dos doentes. E tratá-los, com pouca ou nenhuma droga, que eu me lembre, quando me formei você tinha nitrito de amilo, diurético mercurial, os bloqueadores ganglionares com aquele desastre todo que a gente conhece, tinha a quinidina. Depois veio o peritrate, pentanitrato de tetraeritrol que marcou como se fosse uma solução para a angina do peito. Depois veio unidade coronária, começou a vir o resto da Medicina atual. Eu acho que a Medicina tem menos de cem anos. Antes acho que foi uma coisa que lembra espiritismo, não existia Medicina científica antes dos cem anos. Claro que havia vacinação e aquelas coisas, mas a grande Medicina, a Medicina Moderna tem cem anos pra mim.

Dr. Evandro Tinoco Mesquita: E quais foram os professores naquela ocasião, no convívio da Faculdade de Medicina na Praia Vermelha e também nos estágios em que os alunos rodavam como a Santa Casa de Misericórdia, Moncorvo Filho. Que professores impressionavam aquele jovem Murad ainda construindo a sua formação como médico?

Dr. Murad: Como eu disse a você, naquela época o que existia, era aquela Medicina Clínica, o cardiologista era um clínico. Não existia nada mais. Então, o maior destaque de toda a minha vida profissional foi o Professor Magalhães Gomes. Um homem muito inteligente, culto, além de uma cultura médica impressionante, era muito estudioso e tinha uma cultura geral, que era uma coisa presente entre os médicos naquela época. Eles tinham cultura geral, eles tinham noções de várias coisas fora da parte médica. O segundo professor que foi importante na minha vida foi o Professor Feijó, esses foram os dois maiores cardiologistas clínicos.

 

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