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Prof. Edson Saad  que preparamos para você.
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  Arquivos Brasileiros de Cardiologia

 Entrevista

 

O Professor Edson Abdalla Saad, 68 anos, nascido em Igarapava, interior de São Paulo, faz parte de uma geração que construiu a história da medicina e cardiologia brasileiras. Acompanhou as principais conquistas que transformaram a medicina cardiovascular numa área onde alta tecnologia tem ocupado o tradicional espaço da arte médica de conversar e examinar os pacientes. È professor titular emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor titular da Universidade Federal Fluminense. Recentemente lançou pela editora Guanabara-Koogan o 1º de três volumes do Tratado de Cardiologia, dedicado à semiologia. Nesta entrevista o Professor Saad fala sobre sua biografia, seu modo particular de exercer a medicina cardiovascular e encarar a vida com "o mesmo entusiasmo com que eu entrei no primeiro dia para sentar no primeiro banco escolar. Com a mesma crença da medicina, na profissão médica... tendo projetos que certamente vão ultrapassar o meu tempo de vida, mas que eu quero seguir até o último dia, sem pensar no último dia. Na certeza de que alguém vai continuar por mim." Vida longa ao Professor Edson Saad!

Dr. Evandro Tinoco Mesquita – Nós estamos iniciando uma nova etapa nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, que são os Arquivos On-Line, utilizando a Internet não só para manter atualizado o cardiologista, mas principalmente preservarmos a memória da Cardiologia Brasileira. E nesta série, Entrevista com Editor, nós estaremos iniciando esse projeto com o Professor Edson A. Saad (Professor Emérito da UFRJ). O Professor Saad é Professor Titular de Cardiologia da Universidade Federal Fluminense – UFF e da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Membro Titular da Academia Nacional de Medicina, e Sócio da Sociedade Brasileira de Cardiologia – SBC, desde 28 de agosto de 1968. Atualmente, exerce a importante atividade de Editor do Programa de Educação Continuada da SBC.

É um motivo de júbilo pessoal, tendo sido discípulo do Professor Saad e tendo com ele convivido durante a minha formação como aluno na Universidade Federal Fluminense (UFF), e depois como seu aluno na Residência e no Mestrado. Com certeza a influência do Professor Saad na Cardiologia do Rio de Janeiro, e na Cardiologia Brasileira é o que nos motiva a estar aqui ressaltando pontos da Biografia do Professor Saad. Além de sua visão sobre a Cardiologia contemporânea e a Cardiologia do futuro, que é muito importante para os jovens Cardiologistas que seguramente trabalharam no ambiente de mudanças como o da Cardiologia atual.

Dr. Evandro - Professor Saad, a primeira questão que eu gostaria de trazer para o senhor é que nos falasse sobre sua vida na infância e adolescência, e a influência familiar. O Senhor tem uma origem árabe como isso, no contexto do século passado, isso influenciou a sua trajetória? Estando a sociedade brasileira atravessando um período de intensa mudança.

Prof. Saad - Bem, eu tive uma infância muito feliz. Se eu pudesse desejar alguma coisa a alguém hoje, seria ter a infância como eu tive. Feliz por viver num lugar pequeno, em que todos conheciam todos. Feliz por ter a família que tive. Feliz por ter algumas pessoas que influenciaram na minha formação e para sumarizar esse tópico, eu quero colocar o frontispício do meu memorial de apresentação dos principais títulos e trabalhos para o Concurso de Professor Titular de Cardiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Alguns dentre os que cruzaram meu caminho ou vice-versa, eu referencio com especial carinho minha mãe, Evelina, toda ela, amor e ternura. Meu pai, Calim, que me deu amor, amizade e o exemplo de dignidade e de uma férrea força de decisão. Irmão Savino Cerise, o meu orientador filosófico na juventude. Luiz Feijó, o meu Mestre em Medicina. José Rodrigues da Silva, pelo seu exemplo, pelo muito que deu em amizade e me preparou para a atividade Científica e Universitária. Mônica, Marcelo, Sérgio e Eduardo, que constituem o meu mundo afetivo, e fazem de mim um homem feliz. Eu acho que assim eu sumarizo o que foi a minha infância.

Dr. Evandro - Professor, os seus pais, quando eles chegaram no Brasil? Foi seu pai que veio para o Brasil? Fala um pouco disso. Quem são eles?


Figura 1:   Prof. Saad na entrevista

Prof. Saad - Eu venho de uma família Católica Maronita, para ser mais preciso. O primeiro emigrante da família para cá, foi meu avó materno, Nasr Faiad, de quem eu guardo as melhores recordações. Meu pai, Calim, chegou aqui com um ano e pouco de idade e minha mãe, Evelina, com 13 anos de idade, nascidos ambos no Líbano. A família tinha aquela característica libanesa de adoração dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais. Era assim um ambiente de uma afetividade sem limites.

 

Eu estudei em Escola Pública; na minha época não existia escola particular nas pequenas cidades. Estudei na escola pública, no Ginásio Estadual Igarapavense. Depois, então, nós mudamos para Uberaba, Minas Gerais. Foi muito marcante isso na minha vida, porque mudar todos os seus amigos, todo seu meio de vida, etc. E de lá, eu vim para o Rio de Janeiro com a intenção já de estudar Medicina. Morei como estudante remediado numa pensão na rua Correia Dutra, e estudava na Faculdade Nacional de Medicina. Não precisei trabalhar nesses anos para me sustentar.

Dr. Evandro - Professor, quais foram as influências que o levaram a se tornar médico?

Prof. Saad  - O exemplo de um Clínico Geral no interior, o Dr. Alcides Antonio Maciel, a quem eu rendo as minhas mais sentidas homenagens. O Dr. Alcides era aquele clínico médico de família que todos adoravam. Eu me lembro, por exemplo, um dia eu me sentia profundamente mal. Uma sensação assim de que eu ia acabar. E ele morava do outro lado da mesma praça em que nós morávamos. Chovia às cântaras e ele veio de guarda-chuva até lá. Ele chegou molhado, como nós dizemos hoje, "como um pinto", para me ver. E quando eu vi aquele homem, eu senti que estava salvo. Essa foi a maior influência que eu tive para ser um médico.

Dr. Evandro - Professor, o Senhor chegou no Rio de Janeiro e no Centro Acadêmico, que era a UFRJ, isso nos idos anos 50. A Sociedade Brasileira era uma Sociedade absolutamente de mudanças. Como era ser aluno de medicina da UFRJ nesse contexto? Como foi essa ambientação, e quais foram os seus amigos nessa trajetória na Universidade?

Prof. Saad - Ser aluno da Faculdade Nacional de Medicina naquela época era profundamente agradável. Nós estudávamos na própria Faculdade. Para estudar Anatomia nós tínhamos que subir quatro andares a pé, porque os elevadores eram destinados só aos professores. Mas, era um ambiente em que as pessoas eram amigas das pessoas. Um ambiente que uns sorriam para os outros, se gostavam. No intervalo do almoço, que era no SAPS (Serviço de Alimentação da Previdência Social), naquela época, todos nós reclamávamos. Mas, todos nós comíamos intensamente. Nós discutíamos na porta da Faculdade - política..., tudo! Resolvíamos todos os problemas do mundo, e podíamos ter opiniões divergentes, como dizia o Professor Fraga, podíamos ter diferenças, não tínhamos desavenças. E, ali, resolvíamos todos os problemas do mundo. Era assim,... extremamente agradável! Dentre os meus colegas e maiores amigos da época eu destaco: Nadir Farah, Eduardo Viegas Filho, Habib Haber, Antonio Paes de Carvalho, Pedro Sollberg, e muitos, muitos outros.

 

 

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