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Prof. Edson Saad  que preparamos para você.
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Na sua prática de consultório em cada 100 pacientes com insuficiência cardíaca, quantos possuem função sistólica preservada?
inferior a 10
20 - 40
50 - 70
> 70

  Arquivos Brasileiros de Cardiologia

 Entrevista

 

Dr. Evandro - Professor, recentemente o Pelé escalou cem pessoas, com seis jogadores mundiais, que ele tenha considerado extra-série no último século, e eu gostaria que o Senhor fizesse uma lista de Cardiologistas no Brasil, e fora do Brasil. Na sua visão tenham trazido não só uma contribuição, mas marcado a sua trajetória, a sua formação. E quais seriam estes nomes? Para o Senhor considerar extra-série da Cardiologia ao longo do último século?

Prof. Saad - No Brasil: antes de mais nada, quem faz uma lista de cem nomes melhores, no Brasil e no mundo é absolutamente louco, porque dos cem, noventa e nove vão reclamar da posição que ocuparam, e alguns milhares de outros de não terem entrado lá. Fazer isso aqui, realmente é insensato. Mas, a pedido do meu amigo Evandro, eu faço até insensatez. No Brasil, certamente Luis Décourt, a figura do médico, do professor, do homem, do humanista, do Cardiologista mais distinguido que eu já conheci nesse tempo. O Professor Luis Décourt foi o Mestre da humanidade pelas suas virtudes e qualidades. Luiz Feijó, Edgar Magalhães Gomes, Artur Carvalho de Azevedo, Reinaldo Chiaverim, Fulvio Pileggi , Radi Macruz.

Dr. Evandro - Pode citar, o Senhor fique a vontade. Quem marcou Edson Saad?

Prof. Saad - Siguemituzo Arie, José Eduardo de Souza, Rubens Maciel, Eduardo Faraco, Giovanni Bellotti, Gastão Pereira da Cunha. E dos em atividade atualmente, correndo o risco de cometer erros fantásticos, eu não vou citar ninguém do Rio de Janeiro para não passar do meu limite de insensatez. Giovani Belotti, sem sombra de dúvida, Protásio Lemos da Luz, Charles Maddy, Antonio Carlos Pereira Barreto. Certamente estou fazendo inúmeras injustiças, mas são frutos de um momento inteiramente...

Dr. Evandro - E galácticos, ...fora do Brasil? Na constelação internacional, quais seriam os nomes?

Prof. Saad - Fora do Brasil, Paul White, Samuel Levine, Richard Gorling, Eugene Braunwald, Valentin Fuster, Victor Dzau, Eric Topol, Mason Sones, René Favaloro, em cirurgia (em cirurgia tem uma centena deles!). Na Inglaterra, Paul Wood, foi sem sombra de dúvida, o ‘príncipe da cardiologia mundial’. Eu vou contar uma história do Paul Wood, depois. Ainda, Aubrey Leatham; A. John Camm; Edgard Sowton, Ronald Gibson; Lawson MacDonald; Maurice Campbell; Jane Sommerville; Walter Sommerville; Peter Harris; J.A. Partridge e Michel Oliver (a maior inteligência que conheci), para citar apenas os mais antigos na Inglaterra.

Dr. Evandro - Então, conta agora, conta uma história de Paul Wood para nós.

Prof. Saad - Eu tinha fascínio pelo Paul Wood. Como ele chegou a dizer: "que em meus mil casos de estenose mitral eu vi isso assim e assim". E eu fiquei louco para saber o método dele. Porque o que nós precisamos saber e aprender com as pessoas não é o que ele diz, hoje. O que ele diz hoje, amanhã, já não é verdade. Eu digo aos alunos sempre isso. Eu não tenho nenhuma responsabilidade com o que eu estiver dizendo agora, amanhã, pode ser totalmente diferente. O que eu queria saber era: como ele tinha chegado naquilo? Então, fui para o ambulatório dele, no Brompton Hospital, hoje Royal Brompton, porque eu queria ver as papeletas dele (Paul Wood). E ali não tinha só papeleta, tinha carta que ele ditava e era mais um relatório em forma de carta ao Médico Geral, que cuida desses doentes, rotineiramente. As cartas dele eram quilométricas. Era todo o raciocínio dele sobre aquele paciente. Era o Paul Wood falando para o Paul Wood! E para minha felicidade, eu encontrei dois casos em que existia estenose mitral, e não existia estalido de abertura. E o raciocínio de Paul Wood era: por que isso podia acontecer? Ou por hipertensão pulmonar, ou calcificação da válvula, ou a válvula rígida e imóvel. E depois o relatório do cirurgião, confirmando inteiramente isso.

Dr. Evandro - Perfeito. Professor, quais são, para o Senhor, as dez maiores conquistas da Cardiologia que o Senhor vivenciou?

Prof. Saad - Que eu vivenciei, ou tenha começado a vivenciar? A criação da eletrocardiografia, da Ecocardiografia, o Rx do tórax, como ele é hoje, o cateterismo cardíaco, a cardiologia invasiva, toda ela. Possivelmente, a ressonância magnética e a medicina nuclear associadas. E, agora, a cardiologia ligada à genética, com o uso da célula-tronco.

Dr. Evandro - O que o Senhor acha da Unidade Coronária? Fala pra gente, um pouco, como era tratar um paciente comum de infarto.

Prof. Saad - A criação das Unidades Coronárias representou um avanço muito grande. Os doentes que eu assisti, com impacto no início da minha carreira, eram tratados com repouso no leito, 40 dias sem poder se mexer, sem poder ir ao banheiro, sem tomar banho, na idéia de que o órgão em repouso se recupera mais rápido. Lembrando uma frase da Dra. Lenora Zomann: "com o exercício físico, eu não sei se eu porei mais anos na sua vida, mas certamente eu porei mais vida nos seus anos". Hoje é o exercício físico, naquela época era o repouso. Repouso para tudo - repouso físico, repouso psicológico, etc. Certamente muitos saiam dali com a idéia absoluta de invalidez. Muitos morriam de fibrilação ventricular, ou de distúrbios cardíacos elétricos graves. Foi Partridge, na Inglaterra, que inventou os primeiros desfribriladores. E os marcapassos consistem também em grandes avanços na Cardiologia. Então, aí a idéia: "se monitorarmos os pacientes...?", isso foi o Dr. Bernard Lown de Harvard, que fez principalmente, "...nós podemos surpreender alguns com arritmias graves, e submetê-los a desfibrilação". Isso realmente fez cair a mortalidade do infarto do miocárdio hospitalar, fora a não hospitalar (pré-hospitalar), de 30% para em torno de 15%. Mas, ficavam 15% ainda residuais, o que foi um avanço excelente, cortando pela metade a mortalidade de uma doença. Depois vem uma série de avanços concomitantes. As idéias atuais sobre a Unidade de Dor, na tentativa de identificar aqueles pacientes que estão sujeitos a complicações maiores, como infartos e etc., uso de trombolíticos, foram alguns dos vários avanços, de sorte que hoje, a mortalidade das Unidades Coronárias deve estar em torno de 6 a 7% . Isso trouxe uma mudança muito grande para a população de pacientes tratados nas Unidades Coronárias. Em primeiro lugar, nós notávamos um grande incremento na porcentagem de indivíduos idosos - vou chamar aqui de idoso, acima de 70 anos, embora a Organização Mundial de Saúde ponha acima de 65 anos de idade, trazendo múltiplos problemas no tratamento dos doentes. E essa é uma das razões pelas as quais, o Cardiologista deve voltar a conhecer Medicina Interna, hoje em dia. Em segundo, é que com o desenvolvimento da Cardiologia, vou comentar isso posteriormente, os Cardiologistas se partiram em múltiplas sub-especialidades, e "...alguém tem que ser o maestro da orquestra". E isso o doente não traz afixado na sua cabeça: "eu sou um doente cardiopata". E procura um médico, e vai ter que ser tratado por ele, mas é realmente com isso que passamos a ter uma população de pacientes, extremamente complexos. Não me espantaria se no futuro isso for uma Especialidade, Emergências Médicas, porque realmente ficou muito mais complexo. Quem não tem uma experiência própria, vivida disso, realmente vai ter problemas para tratar estes pacientes. 

"Eu digo sempre, é preciso ‘gostar de gente’. Se ele não gostar de gente, não há como ser médico".

Edson A Saad

Dr. Evandro - Professor, o Senhor sempre teve uma vasta cultura geral e uma sólida cultura humanística. Como o Senhor entende desses dois aspectos no contexto da formação do médico contemporâneo. Uma vez que a Especialidade, ela tem feito com que o jovem, cada vez mais, fique assoberbado pela cultura médica. E no seu papel como Editor do Programa de Educação Continuada da SBC, o Senhor tem trazido essa preocupação? O Senhor pode falar um pouco disso para os jovens?

Prof. Saad - Primeiro, esse gosto pela formação geral, cultural, humanista, vem desde a escola secundária, deve vir da Escola Secundária. Infelizmente, não temos uma escola secundária com muita qualidade no Brasil. Eu tive a felicidade de estudar em um Colégio de Irmãos Maristas, em que essa cultura, essa humanização, era bastante cultivada. Eu acho que a cultura humanística é necessária para que o médico entenda o seu paciente. Ele precisa ter prazer no que está fazendo. E eu digo sempre, é preciso ‘gostar de gente’. Se ele não gostar de gente, não há como ser médico. E, infelizmente, por uma série de razões, e até ligadas a evolução do mundo, as gerações jovens são, com exceções, cada vez mais egoístas, o que é difícil compatibilizar à idéia de se dedicar a alguém. E também ele precisa sobreviver, e isso leva a uma materialização profissional que cabe a cada um de nós compatibilizar com a preocupação humanística. Agora como adquirir essa cultura? Não se tem a receita de bolo, não é lendo um livro ou dois: "...é lendo muita coisa, ...pegando muita coisa, de muita gente, ...refletindo, especialmente". Mas não se tem uma receita de bolo. Expresso esta preocupação no Programa de Educação Continuada da Sociedade Brasileira de Cardiologia (PEC/SBC). Aí redijo uma sessão denominada Escolha do Editor e onde insiro temas de cultura humanística, literatura, ética e até humor.

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