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Dr.
Evandro - Professor, recentemente o Pelé
escalou cem pessoas, com seis jogadores mundiais,
que ele tenha considerado extra-série no último
século, e eu gostaria que o Senhor fizesse uma
lista de Cardiologistas no Brasil, e fora do
Brasil. Na sua visão tenham trazido não só uma
contribuição, mas marcado a sua trajetória, a
sua formação. E quais seriam estes nomes? Para o
Senhor considerar extra-série da Cardiologia ao
longo do último século?
Prof.
Saad - No Brasil: antes de mais nada, quem
faz uma lista de cem nomes melhores, no Brasil e
no mundo é absolutamente louco, porque dos cem,
noventa e nove vão reclamar da posição que
ocuparam, e alguns milhares de outros de não
terem entrado lá. Fazer isso aqui, realmente é
insensato. Mas, a pedido do meu amigo Evandro, eu
faço até insensatez. No Brasil, certamente Luis
Décourt, a figura do médico, do professor, do
homem, do humanista, do Cardiologista mais
distinguido que eu já conheci nesse tempo. O
Professor Luis Décourt foi o Mestre da humanidade
pelas suas virtudes e qualidades. Luiz Feijó,
Edgar Magalhães Gomes, Artur Carvalho de Azevedo,
Reinaldo Chiaverim, Fulvio Pileggi , Radi Macruz.
Dr.
Evandro - Pode citar, o Senhor fique a
vontade. Quem marcou Edson Saad?
Prof.
Saad - Siguemituzo Arie, José Eduardo de
Souza, Rubens Maciel, Eduardo Faraco, Giovanni
Bellotti, Gastão Pereira da Cunha. E dos em
atividade atualmente, correndo o risco de cometer
erros fantásticos, eu não vou citar ninguém do
Rio de Janeiro para não passar do meu limite de
insensatez. Giovani Belotti, sem sombra de
dúvida, Protásio Lemos da Luz, Charles Maddy,
Antonio Carlos Pereira Barreto. Certamente estou
fazendo inúmeras injustiças, mas são frutos de
um momento inteiramente...
Dr.
Evandro - E galácticos, ...fora do Brasil?
Na constelação internacional, quais seriam os
nomes?
Prof.
Saad - Fora do Brasil, Paul White, Samuel
Levine, Richard Gorling, Eugene Braunwald,
Valentin Fuster, Victor Dzau, Eric Topol, Mason
Sones, René Favaloro, em cirurgia (em cirurgia
tem uma centena deles!). Na Inglaterra, Paul Wood,
foi sem sombra de dúvida, o ‘príncipe da
cardiologia mundial’. Eu vou contar uma
história do Paul Wood, depois. Ainda, Aubrey
Leatham; A. John Camm; Edgard Sowton, Ronald
Gibson; Lawson MacDonald; Maurice Campbell; Jane
Sommerville; Walter Sommerville; Peter Harris;
J.A. Partridge e Michel Oliver (a maior
inteligência que conheci), para citar apenas os
mais antigos na Inglaterra.
Dr.
Evandro - Então, conta agora, conta uma
história de Paul Wood para nós.
Prof.
Saad - Eu tinha fascínio pelo Paul Wood.
Como ele chegou a dizer: "que em meus mil
casos de estenose mitral eu vi isso assim e
assim". E eu fiquei louco para saber o
método dele. Porque o que nós precisamos saber e
aprender com as pessoas não é o que ele diz,
hoje. O que ele diz hoje, amanhã, já não é
verdade. Eu digo aos alunos sempre isso. Eu não
tenho nenhuma responsabilidade com o
que eu estiver dizendo agora, amanhã, pode ser
totalmente diferente. O que eu queria saber era:
como ele tinha chegado naquilo? Então, fui para o
ambulatório dele, no Brompton Hospital, hoje
Royal Brompton, porque eu queria ver as papeletas
dele (Paul Wood). E ali não tinha só papeleta,
tinha carta que ele ditava e era mais um
relatório em forma de carta ao Médico Geral, que
cuida desses doentes, rotineiramente. As cartas
dele eram quilométricas. Era todo o raciocínio
dele sobre aquele paciente. Era o Paul Wood
falando para o Paul Wood! E para minha felicidade,
eu encontrei dois casos em que existia estenose
mitral, e não existia estalido de abertura. E o
raciocínio de Paul Wood era: por que isso podia
acontecer? Ou por hipertensão pulmonar, ou
calcificação da válvula, ou a válvula rígida
e imóvel. E depois o relatório do cirurgião,
confirmando inteiramente isso.
Dr.
Evandro - Perfeito. Professor, quais são,
para o Senhor, as dez maiores conquistas da
Cardiologia que o Senhor vivenciou?
Prof.
Saad - Que eu vivenciei, ou tenha começado
a vivenciar? A criação da eletrocardiografia, da
Ecocardiografia, o Rx do tórax, como ele é hoje,
o cateterismo cardíaco, a cardiologia invasiva,
toda ela. Possivelmente, a ressonância magnética
e a medicina nuclear associadas. E, agora, a
cardiologia ligada à genética, com o uso da
célula-tronco. |
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Dr.
Evandro - O que o Senhor acha da Unidade
Coronária? Fala pra gente, um pouco, como era
tratar um paciente comum de infarto.
Prof.
Saad - A criação das Unidades Coronárias
representou um avanço muito grande. Os doentes
que eu assisti, com impacto no início da minha
carreira, eram tratados com repouso no leito, 40
dias sem poder se mexer, sem poder ir ao banheiro,
sem tomar banho, na idéia de que o órgão em
repouso se recupera mais rápido. Lembrando uma
frase da Dra. Lenora Zomann: "com o
exercício físico, eu não sei se eu porei mais
anos na sua vida, mas certamente eu porei mais
vida nos seus anos". Hoje é o exercício
físico, naquela época era o repouso. Repouso
para tudo - repouso físico, repouso psicológico,
etc. Certamente muitos saiam dali com a idéia
absoluta de invalidez. Muitos morriam de
fibrilação ventricular, ou de distúrbios
cardíacos elétricos graves. Foi Partridge, na
Inglaterra, que inventou os primeiros
desfribriladores. E os marcapassos consistem
também em grandes avanços na Cardiologia.
Então, aí a idéia: "se monitorarmos os
pacientes...?", isso foi o Dr. Bernard Lown
de Harvard, que fez principalmente, "...nós
podemos surpreender alguns com arritmias graves, e
submetê-los a desfibrilação". Isso
realmente fez cair a mortalidade do infarto do
miocárdio hospitalar, fora a não hospitalar
(pré-hospitalar), de 30% para em torno de 15%.
Mas, ficavam 15% ainda residuais, o que foi um
avanço excelente, cortando pela metade a
mortalidade de uma doença. Depois vem uma série
de avanços concomitantes. As idéias atuais sobre
a Unidade de Dor, na tentativa de identificar
aqueles pacientes que estão sujeitos a
complicações maiores, como infartos e etc., uso
de trombolíticos, foram alguns dos vários
avanços, de sorte que hoje, a mortalidade das
Unidades Coronárias deve estar em torno de 6 a 7%
. Isso trouxe uma mudança muito grande para a
população de pacientes tratados nas Unidades
Coronárias. Em primeiro lugar, nós notávamos um
grande incremento na porcentagem de indivíduos
idosos - vou chamar aqui de idoso, acima de 70
anos, embora a Organização Mundial de Saúde
ponha acima de 65 anos de idade, trazendo
múltiplos problemas no tratamento dos doentes. E
essa é uma das razões pelas as quais, o
Cardiologista deve voltar a conhecer Medicina
Interna, hoje em dia. Em segundo, é que com o
desenvolvimento da Cardiologia, vou comentar isso
posteriormente, os Cardiologistas se partiram em
múltiplas sub-especialidades, e "...alguém
tem que ser o maestro da orquestra". E isso o
doente não traz afixado na sua cabeça: "eu
sou um doente cardiopata". E procura um
médico, e vai ter que ser tratado por ele, mas é
realmente com isso que passamos a ter uma
população de pacientes, extremamente complexos.
Não me espantaria se no futuro isso for uma
Especialidade, Emergências Médicas, porque
realmente ficou muito mais complexo. Quem não tem
uma experiência própria, vivida disso, realmente
vai ter problemas para tratar estes pacientes.
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"Eu
digo sempre, é preciso ‘gostar de gente’. Se
ele não gostar de gente, não há como ser
médico".
Edson
A Saad |
Dr.
Evandro - Professor, o Senhor sempre teve
uma vasta cultura geral e uma sólida cultura
humanística. Como o Senhor entende desses dois
aspectos no contexto da formação do médico
contemporâneo. Uma vez que a Especialidade, ela
tem feito com que o jovem, cada vez mais, fique
assoberbado pela cultura médica. E no seu papel
como Editor do Programa de Educação Continuada
da SBC, o Senhor tem trazido essa preocupação? O
Senhor pode falar um pouco disso para os jovens?
Prof.
Saad - Primeiro, esse gosto pela formação
geral, cultural, humanista, vem desde a escola
secundária, deve vir da Escola Secundária.
Infelizmente, não temos uma escola secundária
com muita qualidade no Brasil. Eu tive a
felicidade de estudar em um Colégio de Irmãos
Maristas, em que essa cultura, essa humanização,
era bastante cultivada. Eu acho que a cultura
humanística é necessária para que o médico
entenda o seu paciente. Ele precisa ter prazer no
que está fazendo. E eu digo sempre, é preciso
‘gostar de gente’. Se ele não gostar de
gente, não há como ser médico. E, infelizmente,
por uma série de razões, e até ligadas a
evolução do mundo, as gerações jovens são,
com exceções, cada vez mais egoístas, o que é
difícil compatibilizar à idéia de se dedicar a
alguém. E também ele precisa sobreviver, e isso
leva a uma materialização profissional que cabe
a cada um de nós compatibilizar com a
preocupação humanística. Agora como adquirir
essa cultura? Não se tem a receita de bolo, não
é lendo um livro ou dois: "...é lendo muita
coisa, ...pegando muita coisa, de muita gente,
...refletindo, especialmente". Mas não se
tem uma receita de bolo. Expresso esta
preocupação no Programa de Educação Continuada
da Sociedade Brasileira de Cardiologia (PEC/SBC).
Aí redijo uma sessão denominada Escolha do
Editor e onde insiro temas de cultura
humanística, literatura, ética e até humor. |