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BRADICARDIA EM PACIENTE TORPOROSO
Antonio Américo Friedmann, José Grindler
São Paulo, SP
Um paciente de 73 anos do sexo masculino com suspeita de AVC, encontrava-se torporoso na maca do pronto-socorro aguardando exames de laboratório, durante a madrugada. Como apresentava bradicardia foi realizado ECG (v. figura).
O traçado revela bradicardia sinusal com FC de 38 bpm, o QRS se apresenta alargado pela presença de uma deflexão em sua porção final (onda J) bem evidente na maioria das derivações e o intervalo QT está aumentado
(QT= 720 ms e QTc 576 ms).
Comentários:
Tais alterações foram atribuídas a hipotermia e a termometria revelou temperatura axilar inferior a 35º C.
Quando a temperatura corpórea diminui acentuadamente, a níveis de cerca de 30º C, surgem alterações no ECG, algumas características: bradicardia sinusal, aumento de duração do intervalo QT e alargamento do QRS às custas do aparecimento de um entalhe final denominado de onda J ou onda O de Osborn, entre o término do QRS e o início do segmento ST, com sentido positivo nas derivações que apontam para o ventrículo esquerdo1.
Esta anormalidade do QRS, típica de hipotermia foi descrita pela primeira vez em 1938 por Tomaszewski2, mas ficou conhecida como onda de Osborn por seu trabalho experimental3 em hipotermia publicado em 1953 e sua preeminência como pesquisador na American Heart
Association.
A gênese desta onda parece estar relacionada a modificações da morfologia e entalhe proeminente no potencial de ação das células epicárdicas, mas não nas endocárdicas, da parede ântero-lateral do ventrículo esquerdo, causadas pelo esfriamento. A distribuição heterogênea das variações do potencial de ação resulta em gradiente de voltagem transmural e aparecimento da deflexão no ponto J do ECG4.
Deflexões no ponto J podem ser encontradas em outras condições como por exemplo a displasia arritmogênica do ventrículo direito (ondas epsilon), a síndrome de Brugada e, até mesmo, na variante normal denominada repolarização precoce. Nestas, entretanto, as anormalidades são evidenciadas nas derivações precordiais direitas e as morfologias são diversas, evidenciando mecanismos eletrofisiológicos diferentes.
Referências:
1. Hurst JW. Naming of the waves in the ECG, with a brief account of their genesis. Circulation. 1998;98:1937-1942
2. Tomaszewski W. Changements électrocardiographiques observés chez un homme mort de froit. Arch Mal Coeur. 1938;31:525-528.
3. Osborn JJ. Experimental hypothermia: respiratory and blood pH changes in relation to cardiac function. Am J Physiol. 1953;175:389-398.
4. Yan GX, Antzelevitch C. Cellular basis for the electrocardiographic J wave. Circulation. 1996;93:372-379.
Antonio Américo Friedmann
Livre-Docente, Diretor do Serviço de Eletrocardiologia do HCFMUSP
José Grindler
Médico Supervisor do Serviço de Eletrocardiologia do HCFMUSP
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A Eletrocardiografia tem demonstrado
durante seus 100 anos de vida que é uma importante ferramenta
para auxiliar os cardiologistas. Já conhecida por sua
excelência nas arritmias e na insuficiência coronária
aguda, observamos atualmente a sua participação nos métodos
diagnósticos para prever a morte súbita. A informatização
do eletrocardiograma forneceu medidas mais corretas, agilizou
a obtenção das informações, integrou-as, facilitando assim
a interpretação. Analisar um eletrocardiograma com cuidado,
extraindo o melhor possível, é um desafio diário para o
cardiologista clínico . A finalidade desta seção é
estimular a discussão, procurar novos detalhes nos traçados
que se correlacionem com a clínica, definir padrões
característicos, pois após tantos anos, ainda temos a
sensação que sempre existirá alguma novidade no
eletrocardiograma.
Dr.Carlos Alberto Pastore
Presidente do Grupo de Estudos de Eletrocardiografia da SBC
Homenagem ao Prof. Dr. João Tranchesi
João Tranchesi morreu.....
Viva João Tranchesi !!
Homem.Forte.Amigo.Inquebrantável.Inesquecível
Como homenagear então uma personalidade tão criativa, vibrante e produtiva como a de João
Tranchesi?, ou JT como os mais próximos o tratavam e ele mesmo se intitulava.
Seria oportuno rever suas conquistas de início de carreira quando foi para o Instituto Nacional de Cardiologia do México, de grande prestígio científico na época, pelos trabalhos coordenados pelo sempre relembrado Prof.
Chávez, para de lá trazer para o Brasil as bases dos modernos métodos gráficos de estudo das cardiopatias?
Ou seria melhor focalizar sua obra “Eletrocardiograma Normal e Patológico – Noções de Vetorcardiografia”, um livro de sucesso marcado por diversas edições que tanto contribuiu para a formação técnica de milhares de cardiologistas do país e de nações vizinhas?
Talvez fosse mais apropriado ressaltar suas teses sempre aprovadas com rara distinção, como a de seu doutoramento: “Considerações sobre Ritmo Ectópicos
Atriais: originadas em zonas próximas à do seio coronário”.
Outros poderiam querer valorizar sua posição de Livre-Docente de Clínica Médica da
Fac. de Med. da USP e Chefe do Serviço de Métodos Gráficos do
Hosp. das Clínicas da FMUSP, depois transferido para o InCor- Instituto do Coração, onde ganhou a dimensão de Divisão de
Eletrocardiologia.
Os mais políticos, no entanto, certamente gostariam de priorizar suas atividades como Editor dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia e Presidente do
FUNCOR, e seus tantos outros serviços prestados à Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Diante desse universo de realizações maiores em benefício da Cardiologia, sobretudo brasileira, João
Tranchesi, o professor cordial e prestativo de sempre, continuava ali, ao nosso lado, ensinando e mostrando os caminhos mais didáticos para orientar o progresso da Eletrocardiologia em todas as suas nuances de aplicação prática no diagnóstico clínico das doenças do coração.
Ele foi vencido por doença insidiosa de longa evolução, contra a qual lutou com coragem, persistência, disciplina, as mesmas características de sua personalidade.
Tanto isto foi realidade que, como bom esportista, faleceu logo após um jogo de tênis.
Sem enumerar muitas outras contribuições, a imagem de JT é a do grande pioneiro e lider de várias gerações de médicos do país e do exterior.
A vida que lhe retribuíra generosamente o esforço, lhe frustaria tirando-o prematuramente de nosso convívio.
Como homenagem, nos restava, portanto, apenas a prazerosa tarefa de reunir Casos Clínicos mais complexos para o raciocínio cardiológico que, de certo modo, caracterizam as quase quatro décadas de aplausos sempre gratificantes ao “ Colóquio João Tranchesi de Eletrocardiografia”- Um clássico-., uma iniciativa pioneira que permanece como um estímulo constante para as nossas realizações no Serviço de Eletrocardiologia do
InCor.
Prof. Dr. Paulo Jorge Moffa
Editores da Seção:
Carlos Alberto Pastore – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
ecg_pastore@incor.usp.br
Paulo Jorge Moffa – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP –E-mail:
moffa@incor.usp.br
Cesar José Grupi – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
cesargrupi@incor.usp.br
Antonio Américo Friedmann – Serviço de Eletrocardiologia do HCFMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 155 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
ecgpamb@hcnet.usp.br
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