SÍNCOPE EM CRIANÇA
Dr. César José Grupi
São Paulo,SP
Uma paciente de nove anos, do sexo feminino, apresentou há dois anos episódio de perda de consciência, palidez e hipertonia; realizou investigação neurológica, com EEG e RM normais. Esteve assintomática até aproximadamente seis meses atrás, desde quando sofreu três episódios de perda de consciência, com duração de segundos, sempre relacionados a esforços e precedidos de cansaço e fraqueza de MMII. Nega uso de medicações e doenças prévias. Para investigação foram realizados ECG (em anexo) e ecocardiograma, que apresentou coração anatomicamente normal.
O eletrocardiograma apresentou ritmo sinusal, bradicardia com freqüência cardíaca de 54bpm, intervalo PR de 0,10s, duração do QRS de 0,06s e intervalo QT de 0,56s.
Comentários:
O quadro clínico da paciente foi atribuído à síndrome do QT longo congênita, apresentando intervalo QTc de 0,52s.
O intervalo QT é medido do início do QRS ao fim da onda T e representa a sístole elétrica ventricular, que corresponde ao tempo total de despolarização e repolarização ventricular, ou seja, é a duração total da atividade elétrica ventricular. O intervalo QT (QTi) varia inversamente com a freqüência cardíaca, de modo que quanto maior a FC, menor o QTi e vice-versa. Assim ele deve ser corrigido em relação à FC, gerando o QTc, que é preferencialmente usado.
O intervalo QT é normalmente medido na derivação que tenha onda T de maior amplitude, em geral, V2 e V3. O intervalo QT em D2 é mais longo, pois é a derivação em que a onda T melhor se projeta. No entanto, na prática, a baixa amplitude e os contornos imprecisos da onda T geram dificuldades para se medir o intervalo QT.O intervalo QT é maior nas mulheres que nos homens e aumenta com a idade e com o sono, provavelmente devido à alteração do tônus autonômico.
O intervalo QT normal varia de 0,34 a 0,44s, sendo os limites máximos do QTc de 0,46s para homens e 0,47s para mulheres; muitos consideram 0,44s para ambos os sexos.
A síndrome do QT longo congênita (SQTL) é uma doença hereditária de canais iônicos causada por mutações nos genes que codificam proteínas dos canais transmembrana de sódio e potássio. Sete genes e seis cromossomos responsáveis pela SQTL congênita foram identificados. Analisando-se eletrofisiologicamente, essas mutações lentificam a inativação da corrente de sódio de despolarização ou causam retardo na corrente de repolarização de potássio, resultando em pós-despolarizações e dispersão da repolarização, ambos contribuindo para o fenótipo final da síndrome.
Inicialmente, as duas formas congênitas mais bem descritas de SQTL foram a síndrome de Jerwell Lange-Nielsen e a síndrome de Romano Ward. A síndrome de Jerwell Lange-Nielsen é uma síndrome cardioauditiva rara na qual surdez é herdada de maneira autossômica recessiva e o prolongamento do QTc decorre de herança dominante de dois alelos mutantes. A síndrome de Romano Ward, mais comum e associada a audição normal, é herdada de maneira autossômica dominante.
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Tipo
SLQT |
Gene |
Cromossomo |
Canal
iônico |
Efeito |
Porcentagem |
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Autossômicas
dominantes
(Romano Ward) |
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SQTL1
(1991) |
KCNQ1(KVLQT1) |
11p15.5 |
Subunidade
a IKs |
¯ IKs |
50% |
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SQTL2
(1994) |
KCNH2 (HERG) |
7q35–36 |
Subunidade
a IKr |
¯ IKr |
45% |
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SQTL3
(1994) |
SCN5A |
3p21–24 |
Subunidade
a INa |
áINa |
3-4% |
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SQTL4
(1995) |
Ankyrin-B |
4q25–27
1 |
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áINa
tardia? |
<1% |
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SQTL5
(1997) |
KCNE1 (minK) |
21q22.1–22.2 |
Subunidade
ß IKs |
¯ IKs |
<1% |
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SQTL6
(1999) |
KCNE2
(MiRP1) |
21q22.1–22.2 |
Subunidade
ß IK |
¯ IKr |
<1% |
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SQTL7
(2001) |
KCNJ2 |
17q23 |
IKir2.1 |
¯IKir2.1 |
<1% |
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Autossômicas
recessivas
(Jerwell Lange-Nielsen) |
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JLN1
(1997) |
KCNQ1
(KVLQT1) |
11p15.5 |
Subunidade
a IKs |
¯ IKs |
<1% |
|
JLN2
(1997) |
KCNE1 (minK) |
21q22.1–22.2 |
Subunidade
ß IKs |
¯ IKs |
<1% |
Legenda.
Iks: componente lento da corrente retificadora de potássio; Ikr: componente rápido da corrente retificadora de potássio; INa: corrente de despolarização de sódio; IKir2.1: corrente retificadora de potássio da fase tardia da repolarização.
Nem todos os genes responsáveis pela SQTL já foram identificados. Além disso, casos esporádicos de SQTL ocorrem como resultado de mutações espontâneas. Desta forma, a ausência de história familiar não exclui completamente o diagnóstico de SQTL congênita.
A SQTL congênita geralmente se manifesta antes dos 40 anos, principalmente na infância e adolescência. A idade na qual a doença se manifesta pela primeira vez depende do genótipo da família. De acordo com dados do International Long QT Syndrome Registry, a média de idade em que ocorre o primeiro evento cardíaco é de 9, 12 e 16 anos em pacientes com SQTL1, SQTL2 e SQTL3, respectivamente. Homens são menos propensos ao desenvolvimento de eventos cardíacos por causa do menor intervalo QT comparado com mulheres. O risco de torsades e morte súbita é maior nas primeiras atividades da manhã, que se correlaciona com os picos diurnos do intervalo
QT.
O diagnóstico de SQTL depende das características clínicas, da história familiar e dos achados eletrocardiográficos do paciente. Síncope inexplicada ou morte súbita em uma criança ou um adulto jovem pode levantar uma grande suspeita da possibilidade de SQTL. O teste genético pode servir como assistência em casos borderline ou em casos em que se suspeita de uma nova mutação. Schwartz propôs um conjunto de critérios que fornecem uma aproximação quantitativa para o diagnostico de SQTL por distribuir pontos numéricos para características clínicas, história familiar, e achados eletrocardiográficos, dividindo a probabilidade de SQTL em baixa, intermediária e alta. Nos casos borderline, deve ser realizado teste de exercício para auxiliar no diagnóstico, pois o intervalo QT pode se prolongar anormalmente durante a fase de recuperação do teste de exercício em pacientes com SQTL.
O quadro clínico de SQTL é o resultado da precipitação de torsades e inclui sintomas desde tontura até convulsões, síncope e morte súbita. Um episódio único de torsades é geralmente de curta duração, termina espontaneamente e pode ocorrer despercebido; entretanto, há uma tendência a recorrer em rápidas sucessões e, portanto, pode causar síncope e morte. Em casos com SQTL congênita, uma súbita e intensa estimulação adrenérgica provavelmente resulta em uma extrassístole, seguida por uma longa pausa pós-extrassistólica e que precipita arritmia num cenário cuja causa de base é o longo intervalo
QT.
O prolongamento do intervalo QT é um fator de risco para morte súbita independentemente da idade do paciente, de história de infarto do miocárdio, da freqüência cardíaca e de história de uso de drogas; os pacientes com intervalo QTc de > 0,44s têm 2 a 3 vezes maior risco de morte súbita que aqueles com intervalo QTc < 0,44s. A taxa de mortalidade em pacientes com SQTL não tratados varia de 1 a 2% por ano. A incidência de morte súbita varia de família para família como uma função do genótipo. Morte súbita em pacientes com SQTL congênita é geralmente precipitada por um evento desencadeador, como exercício físico, privação de sono, estímulo auditivo, súbito e intenso estímulo simpático, incluindo sofrimento, medo, dor, raiva, ou susto. Esses eventos tendem a ser agrupar nas famílias de acordo com o genótipo, de forma que exercícios físicos parecem desencadear mais eventos cardíacos em pacientes SQTL1, estímulos auditivos e estresse emocional em pacientes SQTL2, enquanto sono e repouso parecem ser desencadeantes de eventos cardíacos em pacientes do tipo SQTL3. Os preditores de alto risco de morte súbita nos pacientes com SQTL congênita incluem episódios recorrentes de síncope, falha na terapia convencional, paciente que já foi reanimado, surdez congênita, sexo feminino, QTc > 0,6s, bradicardia relativa, parentesco com um paciente sintomático e morte súbita cardíaca em membro jovem da família.
Quanto aos achados eletrocardiográficos, na maioria dos pacientes com SQTL congênita, o intervalo QTc é > 0,44s, mas em 6 a 12% dos pacientes o intervalo QTc está dentro dos limites normais e cerca de 1/3 dos pacientes têm intervalo QTc £ 0,46s. As outras características eletrocardiográficas, especialmente acompanhando anormalidades da onda T e onda U, podem auxiliar o diagnóstico, especialmente nos casos em que o intervalo QTc está dentro dos limites normais ou é borderline. Bradicardia sinusal com pausa sinusal foi relatada em mais de 1/3 dos pacientes com SQTL congênita, especialmente em pacientes SQTL3. Outra característica eletrocardiográfica da SQTL é o aumento da dispersão do intervalo QT, o que é devido a repolarização alterada na SQTL. A onda T pode ser maior, prolongada e de aparência bizarra, pode ser entalhada, bífida, bifásica ou com aparência alternante. A onda T alternante é uma característica diagnóstica de SQTL e reflete um aumento da instabilidade elétrica durante a repolarização. Diferentes genótipos podem apresentar diferentes fenótipos eletrocardiográficos.
Diante do diagnóstico de SQTL congênita da paciente do presente caso e frente a episódios de torsades registrados com monitor de eventos, optou-se por implantação de marcapasso definitivo e uso contínuo de beta-bloqueador, a fim de minimizar as chances de recorrência de novos episódios de torsades e risco de morte súbita.
Colaboradores:
Rafaela Alkmin da Costa - Acadêmica 3º ano da FMUSP
Valter Dell'Acqua Cassão - Acadêmico 3º ano da FMUSP
Referências:
1. Chiang, Chern-En MD, PhD, FACC, FESC Congenital and Acquired Long QT Syndrome: Current Concepts and Management. Cardiology in Review. 12(4):222-234, July/August 2004.
2. Cardiac Arrhithmias Research and Education (CARE) Foundation: www.longqt.org
3. Wilde, Arthur A.M. MD; Roden, Dan M. MD Predicting the Long-QT Genotype From Clinical Data: From Sense to Science. Circulation. 102(23):2796-2798, December 5, 2000.
4. Khan, Ijaz A. MD, FACP, FACC Long QT syndrome: Diagnosis and management. American Heart Journal. 143(1):7-14, January 2002.
5. Kass, Robert S. 1; Moss, Arthur J. 2 Long QT syndrome: novel insights into the mechanisms of cardiac arrhythmias. Journal of Clinical Investigation. 112(6):810-815, September 2003.
6. Site: www.torsades.org
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A Eletrocardiografia tem demonstrado
durante seus 100 anos de vida que é uma importante ferramenta
para auxiliar os cardiologistas. Já conhecida por sua
excelência nas arritmias e na insuficiência coronária
aguda, observamos atualmente a sua participação nos métodos
diagnósticos para prever a morte súbita. A informatização
do eletrocardiograma forneceu medidas mais corretas, agilizou
a obtenção das informações, integrou-as, facilitando assim
a interpretação. Analisar um eletrocardiograma com cuidado,
extraindo o melhor possível, é um desafio diário para o
cardiologista clínico . A finalidade desta seção é
estimular a discussão, procurar novos detalhes nos traçados
que se correlacionem com a clínica, definir padrões
característicos, pois após tantos anos, ainda temos a
sensação que sempre existirá alguma novidade no
eletrocardiograma.
Dr.Carlos Alberto Pastore
Presidente do Grupo de Estudos de Eletrocardiografia da SBC
Homenagem ao Prof. Dr. João Tranchesi
João Tranchesi morreu.....
Viva João Tranchesi !!
Homem.Forte.Amigo.Inquebrantável.Inesquecível
Como homenagear então uma personalidade tão criativa, vibrante e produtiva como a de João
Tranchesi?, ou JT como os mais próximos o tratavam e ele mesmo se intitulava.
Seria oportuno rever suas conquistas de início de carreira quando foi para o Instituto Nacional de Cardiologia do México, de grande prestígio científico na época, pelos trabalhos coordenados pelo sempre relembrado Prof.
Chávez, para de lá trazer para o Brasil as bases dos modernos métodos gráficos de estudo das cardiopatias?
Ou seria melhor focalizar sua obra “Eletrocardiograma Normal e Patológico – Noções de Vetorcardiografia”, um livro de sucesso marcado por diversas edições que tanto contribuiu para a formação técnica de milhares de cardiologistas do país e de nações vizinhas?
Talvez fosse mais apropriado ressaltar suas teses sempre aprovadas com rara distinção, como a de seu doutoramento: “Considerações sobre Ritmo Ectópicos
Atriais: originadas em zonas próximas à do seio coronário”.
Outros poderiam querer valorizar sua posição de Livre-Docente de Clínica Médica da
Fac. de Med. da USP e Chefe do Serviço de Métodos Gráficos do
Hosp. das Clínicas da FMUSP, depois transferido para o InCor- Instituto do Coração, onde ganhou a dimensão de Divisão de
Eletrocardiologia.
Os mais políticos, no entanto, certamente gostariam de priorizar suas atividades como Editor dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia e Presidente do
FUNCOR, e seus tantos outros serviços prestados à Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Diante desse universo de realizações maiores em benefício da Cardiologia, sobretudo brasileira, João
Tranchesi, o professor cordial e prestativo de sempre, continuava ali, ao nosso lado, ensinando e mostrando os caminhos mais didáticos para orientar o progresso da Eletrocardiologia em todas as suas nuances de aplicação prática no diagnóstico clínico das doenças do coração.
Ele foi vencido por doença insidiosa de longa evolução, contra a qual lutou com coragem, persistência, disciplina, as mesmas características de sua personalidade.
Tanto isto foi realidade que, como bom esportista, faleceu logo após um jogo de tênis.
Sem enumerar muitas outras contribuições, a imagem de JT é a do grande pioneiro e lider de várias gerações de médicos do país e do exterior.
A vida que lhe retribuíra generosamente o esforço, lhe frustaria tirando-o prematuramente de nosso convívio.
Como homenagem, nos restava, portanto, apenas a prazerosa tarefa de reunir Casos Clínicos mais complexos para o raciocínio cardiológico que, de certo modo, caracterizam as quase quatro décadas de aplausos sempre gratificantes ao “ Colóquio João Tranchesi de Eletrocardiografia”- Um clássico-., uma iniciativa pioneira que permanece como um estímulo constante para as nossas realizações no Serviço de Eletrocardiologia do
InCor.
Prof. Dr. Paulo Jorge Moffa
Editores da Seção:
Carlos Alberto Pastore – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
ecg_pastore@incor.usp.br
Paulo Jorge Moffa – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP –E-mail:
moffa@incor.usp.br
Cesar José Grupi – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
cesargrupi@incor.usp.br
Antonio Américo Friedmann – Serviço de Eletrocardiologia do HCFMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 155 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
ecgpamb@hcnet.usp.br
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