|
MEMÓRIA ELÉTRICA PÓS REVERSÃO DE TAQUICARDIA PAROXÍSTICA
Dr. Antonio Américo Friedmann - Diretor do Serviço de
Eletrocardiologia do HCFMUSP
Dr. José Grindler - Supervisor do Serviço de Eletrocardiologia
do HCFMUSP
São Paulo, SP
MJOS, 70 anos, sexo feminino, em tratamento ambulatorial de
hipertensão arterial sistêmica, encaminhada ao Serviço de
Eletrocardiografia do HCFMUSP apresentava taquicardia
supraventricular com freqüência cardíaca de 130 bpm (figura
1).
Decidiu-se pela administração de adenosina endovenosa, com a
qual houve reversão ao ritmo sinusal e normalização do ECG
(figura 2).
A paciente permaneceu em observação durante alguns minutos e,
curiosamente, estando ela assintomática e estável, o ECG de
controle tardio mostrou expressiva alteração da repolarização
ventricular (figura 3).
A revisão do prontuário revelou que tal alteração
eletrocardiográfica era preexistente, como pode ser observado
em ECG registrado anteriormente (figura 4).
Assim aventou-se a possibilidade de que no ECG aparentemente
normal logo após a reversão da taquicardia houve uma
pseudonormalização da onda T por mecanismo de memória
elétrica.

Figura 1. ECG com taquicardia supraventricular.
Figura 2. ECG imediatamente após a reversão ao ritmo
sinusal,
aparentemente normal.

Figura 3. ECG tardio, com inversão de ondas T.

Figura 4. ECG prévio, com as mesmas alterações da
repolarização ventricular (pré-existentes).
Discussão
O ECG inicial mostra taquicardia com complexos QRS estreitos,
não precedidos por ondas P, e ondas T positivas na maioria das
derivações. A análise mais detalhada do QRS revela a
existência de ondas “s” em D2, D3 e aVF e ondas “r’” em V1
indicativas da superposição das ondas P retrógradas no QRS (
pseudo s e pseudo r’) típicas de taquicardia por reentrada
nodal, e confirmada pelo seu desaparecimento nos demais ECG em
ritmo sinusal.
No ECG logo após a reversão as ondas T continuam positivas na
maioria das derivações, aparentando normalidade da
repolarizaçao ventricular. Contudo, nos demais ECG, tardio e
prévio em relação à taquicardia paroxística, observam-se ondas
T negativas nas derivações esquerdas D1, aVL e nas precordiais
V3 a V5 ou V6, possivelmente relacionada a padrão strain por
sobrecarga ventricular esquerda.
A memória elétrica cardíaca é um fenômeno pouco reconhecido1,
que ocorre quando surge uma despolarização ventricular anormal
e conseqüente alteração secundária da despolarização, e se
caracteriza por inversões da onda T que se mantém por algum
tempo após a normalização da ativação ventricular. É
relativamente freqüente em portadores de marcapasso
artificial2 mas pode surgir em outras condições que alteram
transitoriamente a despolarização ventricular como o bloqueio
do ramo esquerdo intermitente3 ou em arritmias que alteram
temporariamente a repolarização ventricular.
Na maioria das vezes verifica-se a negativação da onda T em
determinadas derivações que pode levar à suspeita de isquemia
miocárdica. No caso apresentado entretanto, o ECG prévio
exibia ondas T negativas que se tornaram positivas (pseudonormalização)
durante a taquicardia e no período imediato após a reversão
(memória elétrica), voltando tardiamente a exibir polaridade
negativa nas mesmas derivações.
Colaboradores:
Rafaela Alkmin da Costa – Acadêmica 3º ano da FMUSP
Valter Dell’Acqua Cassão – Acadêmico 3º ano da FMUSP
Referências
1. Kolb JC. Cardiac memory-persistent T wave changes after
ventricular pacing. J Emerg Med. 2002 Aug;23(2):191-7.
2. Alves PA, Ribeiro JC, Sabino M, De Souza O, Maia IG.
Cardiac memory in patients with permanent artificial
pacemakers. Arq Bras Cardiol. 1991 Sep;57(3):207-11.
3. Denes P, Pick A, Miller RH, Pietras RJ, Rosen KM. A
characteristic precordial repolarization abnormality with
intermittent left bundle-branch block. Ann Intern Med.
Jul;89(1):55-7.
|
A Eletrocardiografia tem demonstrado
durante seus 100 anos de vida que é uma importante ferramenta
para auxiliar os cardiologistas. Já conhecida por sua
excelência nas arritmias e na insuficiência coronária
aguda, observamos atualmente a sua participação nos métodos
diagnósticos para prever a morte súbita. A informatização
do eletrocardiograma forneceu medidas mais corretas, agilizou
a obtenção das informações, integrou-as, facilitando assim
a interpretação. Analisar um eletrocardiograma com cuidado,
extraindo o melhor possível, é um desafio diário para o
cardiologista clínico . A finalidade desta seção é
estimular a discussão, procurar novos detalhes nos traçados
que se correlacionem com a clínica, definir padrões
característicos, pois após tantos anos, ainda temos a
sensação que sempre existirá alguma novidade no
eletrocardiograma.
Dr.Carlos Alberto Pastore
Presidente do Grupo de Estudos de Eletrocardiografia da SBC
Homenagem ao Prof. Dr. João Tranchesi
João Tranchesi morreu.....
Viva João Tranchesi !!
Homem.Forte.Amigo.Inquebrantável.Inesquecível
Como homenagear então uma personalidade tão criativa, vibrante e produtiva como a de João
Tranchesi?, ou JT como os mais próximos o tratavam e ele mesmo se intitulava.
Seria oportuno rever suas conquistas de início de carreira quando foi para o Instituto Nacional de Cardiologia do México, de grande prestígio científico na época, pelos trabalhos coordenados pelo sempre relembrado Prof.
Chávez, para de lá trazer para o Brasil as bases dos modernos métodos gráficos de estudo das cardiopatias?
Ou seria melhor focalizar sua obra “Eletrocardiograma Normal e Patológico – Noções de Vetorcardiografia”, um livro de sucesso marcado por diversas edições que tanto contribuiu para a formação técnica de milhares de cardiologistas do país e de nações vizinhas?
Talvez fosse mais apropriado ressaltar suas teses sempre aprovadas com rara distinção, como a de seu doutoramento: “Considerações sobre Ritmo Ectópicos
Atriais: originadas em zonas próximas à do seio coronário”.
Outros poderiam querer valorizar sua posição de Livre-Docente de Clínica Médica da
Fac. de Med. da USP e Chefe do Serviço de Métodos Gráficos do
Hosp. das Clínicas da FMUSP, depois transferido para o InCor- Instituto do Coração, onde ganhou a dimensão de Divisão de
Eletrocardiologia.
Os mais políticos, no entanto, certamente gostariam de priorizar suas atividades como Editor dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia e Presidente do
FUNCOR, e seus tantos outros serviços prestados à Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Diante desse universo de realizações maiores em benefício da Cardiologia, sobretudo brasileira, João
Tranchesi, o professor cordial e prestativo de sempre, continuava ali, ao nosso lado, ensinando e mostrando os caminhos mais didáticos para orientar o progresso da Eletrocardiologia em todas as suas nuances de aplicação prática no diagnóstico clínico das doenças do coração.
Ele foi vencido por doença insidiosa de longa evolução, contra a qual lutou com coragem, persistência, disciplina, as mesmas características de sua personalidade.
Tanto isto foi realidade que, como bom esportista, faleceu logo após um jogo de tênis.
Sem enumerar muitas outras contribuições, a imagem de JT é a do grande pioneiro e lider de várias gerações de médicos do país e do exterior.
A vida que lhe retribuíra generosamente o esforço, lhe frustaria tirando-o prematuramente de nosso convívio.
Como homenagem, nos restava, portanto, apenas a prazerosa tarefa de reunir Casos Clínicos mais complexos para o raciocínio cardiológico que, de certo modo, caracterizam as quase quatro décadas de aplausos sempre gratificantes ao “ Colóquio João Tranchesi de Eletrocardiografia”- Um clássico-., uma iniciativa pioneira que permanece como um estímulo constante para as nossas realizações no Serviço de Eletrocardiologia do
InCor.
Prof. Dr. Paulo Jorge Moffa
Editores da Seção:
Carlos Alberto Pastore – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
ecg_pastore@incor.usp.br
Paulo Jorge Moffa – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP –E-mail:
moffa@incor.usp.br
Cesar José Grupi – Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da FMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 44 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
cesargrupi@incor.usp.br
Antonio Américo Friedmann – Serviço de Eletrocardiologia do HCFMUSP
Av. Dr. Eneas C. Aguiar, 155 – CEP 05403-000 – São Paulo, SP – E-mail:
ecgpamb@hcnet.usp.br
|
|