Home
 Corpo Editorial
 Informações aos Autores
 Educação Médica
 Artigos de Atualização
 PEC - SBC
 Banco de Teses
 Diretrizes
 Galeria dos Editores
 Fale aos Editores
 Edições Anteriores
 Links
 Cadastre-se
TÚNEL DO TEMPO
 Arquivos de Ontem-Hoje
Veja nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia o artigo do Dr. Adib D. Jatene publicado em 1975 e o comentário do Dr. Valter Gomes.
 Sócio da SBC, utilize
 seu e-mail e senha
 do Cardiol. 
   
 email:  
 senha:  
 Está com dúvidas?

   

 Não Sócio da SBC: caso
 ainda não tenha se
 cadastrado, clique no
 botão abaixo.
Assista à entrevista do
Prof. Stans Murad Netto que preparamos para você.
 TÓPICOS DA HISTÓRIA DA CARDIOLOGIA
Veja Aqui a História da Cardiologia.

Grupo de Estudos de Eletrocardiografia da SBC. Confira o ECG do mês.

 PRÁTICA CLÍNICA
BASEADA EM EVIDÊNCIAS 
Veja Aqui os artigos de prática clínica.
 PESQUISA

Você solicita teste de esforço ou cintilografia miocárdica de rotina na avaliação pré-operatória
de cirurgia não cardíaca em pacientes acima de 45 anos
?

sim
não

Na sua prática clínica em cada 100 pacientes com IAM quantos apresentam IAM com supra de ST?
< 20 %
20-40 %
40-60 % 
> 60 %

   Arquivos Brasileiros de Cardiologia

 Ponto de Vista

Diretor do Incor quer exame para a prática da medicina

Expondo seus argumentos com a clareza dos professores, Ramires também encontrou tempo para falar sobre o Incor, os planos de saúde, a pesquisa científica e patentes. Leia, a seguir, trechos de sua entrevista.


Folha - Como vai o Incor?
José Antônio Franchini Ramires - Bem, o Incor está atuando de acordo com sua estratégia. Como todo hospital, ele foi criado para a assistência médica. Isso é obrigação. Só que como hospital-escola, esse não é seu único objetivo. Há metas secundárias extremamente importantes, como ser um centro de ensino na área de cardiologia.
Na área de pesquisa, a mesma coisa. O Incor tem a obrigação de fazê-la, sendo ele um hospital público universitário. Mas, em vez de adotar uma linha-mestra, de só estudar a aterosclerose, por exemplo, desenvolvemos dentro do Incor todas as áreas que estejam ligadas à cardiologia. Esse foi o grande objetivo perseguido pelo Incor nesses 27 anos, o que faz com que ele seja um dos poucos centros de cardiologia do mundo que consegue ter atividade em todas as áreas. É um grande centro de pesquisa, de aplicação, é um grande centro de próteses cardíacas que são fabricadas e produzidas aqui, desde próteses simples de vasos até próteses complicadas, como o coração artificial.


Folha - E requerem as patentes...
Ramires - Sim, isso é nossa obrigação. Daqui a 20, 30 dias deveremos lançar aqui dentro uma patente que vai trazer uma grande contribuição para a medicina. Nos pacientes graves diabéticos, nosso maior problema é controlar a glicemia. É extremamente difícil. Para ter um controle ideal, você tem que fazer gota a gota a insulina na veia. Deixar um paciente na enfermaria com gota a gota é um trabalho hercúleo, precisa ter sempre alguém por perto. Então, a partir de mecanismos que já existiam, desenvolvemos um sistema de leitura que coloca a glicemia on-line no monitor. Isso vai ser uma grande, não digo revolução, mas um grande apoio à medicina contemporânea.


Folha - E alguma patente já trouxe benefícios significativos?
Ramires - Várias patentes que foram desenvolvidas no Incor são hoje aplicadas. O grande problema dessas patentes no Brasil é você negociar com a indústria nacional. Não é fácil porque a indústria nacional não está acostumada à pesquisa. É mais fácil você copiar do que pesquisar e investir em inovação tecnológica.


Folha - E a indústria estrangeira?
Ramires - A indústria estrangeira acaba se interessando mais.


Folha - Qual a sua avaliação do sistema público de saúde?
Ramires - O problema é a demanda reprimida, que existe em todo sistema de saúde. É por isso que as pessoas vêm em busca do Incor. Muitas vezes, nós vemos que nem é necessário.


Folha - Então seria possível organizar melhor o sistema...
Ramires - O que nós temos tentado ao longo desses últimos anos é fazer com que o hospital, a universidade, saia das suas muralhas eternas e vá para o sistema de saúde, colaborar na organização. É perfeitamente possível aplicar o modelo que desenvolvemos para a cardiologia a outras áreas da medicina e em outros locais.
Um dos grandes problemas hoje do sistema de saúde é que o médico precisa ligar para alguém para pedir vagas. Isso é uma aberração. O sistema não pode viver assim. Ele tem que funcionar independentemente de favorecimento. E o cidadão precisa saber que, quando ele é atendido na ponta da linha, num extremo da cidade, ele acabou de pôr o pé no Incor, porque, se houver necessidade de vir até o Incor para completar o tratamento ou o diagnóstico, isso vai ocorrer automaticamente.
Nós temos um módulo no Hospital do Ipiranga, com vários hospitais coligados, como o Heliópolis, o Cândido Fontoura. Os pacientes podem fazer os seus exames diagnósticos no Ipiranga, onde o Incor coloca aparelhos. Havendo a necessidade de continuar a exploração com equipamentos mais sofisticados, aí o paciente vem para o Incor. Mas ele vem com um diagnóstico inicial estabelecido. Qual é o benefício? A Secretaria da Saúde não precisa comprar tantos equipamentos. Só o Incor e o Dante Pazzanese atenderiam boa parte da demanda necessária para a Grande São Paulo, com baixo custo de investimento.


Folha - Por que só funciona com base no favorecimento hoje?
Ramires - Porque o Sistema Único de Saúde (SUS) faz parte de um projeto que é maravilhoso. Só que ele é maravilhoso no papel. Para aplicá-lo seria preciso ter uma estrutura toda interligada, funcionando sincronizadamente. E nós sabemos que não é assim. O próprio paciente não sabe como ser atendido. Ele atravessa 100 km, 1.000 km para ir a um outro lugar. Por quê? Ele não sente confiança. Então, ele vai em busca de um lugar melhor e pula de unidade em unidade, repetindo os mesmos exames. Cada médico vê um pedacinho, ninguém junta as peças, e o paciente fica pululando de um canto para o outro.


Folha - E onera mais o sistema...
Ramires - Como o sistema não tem grandes controles, perde-se o recurso e nem se sabe que perdeu.


Folha - O senhor é dos que defendem a tese de que o problema do SUS é mais de falta de organização do que de recursos?
Ramires - Sem dúvida. O ponto básico é não perder os recursos por má aplicação. Se tivéssemos controle mais rígido, veríamos que existem recursos para fazer o sistema funcionar. Se há falta, ela não é tão grande como aparenta.


Cardiologista vê na desorganização a falha mais grave do SUS e critica forma de implantação do genérico.


Folha - E como o senhor vê a proliferação de escolas médicas?

Ramires - Esse é um grande problema político. Infelizmente, a expansão de escolas não se faz com base nas necessidades do país. Não há nem professores qualificados em número suficiente, mas se cria o curso. O resultado são profissionais de baixo nível. No direito isso ocorreu ainda antes da medicina e, por isso, o exame da OAB tem esse resultado catastrófico. Se a medicina tivesse um exame semelhante, o resultado seria exatamente igual. Catastrófico! Por quê? Criaram-se faculdades de medicina sem atender às necessidades de demanda. Criam-se premissas falsas, como a falta de médicos em determinadas regiões. Mas por que ninguém quer ir para tal lugar? Porque não se criaram as condições para o indivíduo exercer a profissão lá. E, depois, ainda importam médicos. Eu não sou contra a vinda de médicos de fora, eu acho que isso até fortalece a nossa medicina. Mas qual médico? Para fazer atendimento básico? Ah, isso é um erro crasso. E, além do mais, apesar do excesso de alunos em faculdades de medicina que saem com péssima formação, nós ainda temos os brasileiros que vão estudar no exterior e querem voltar para o Brasil. Estamos recebendo brasileiros formados na Argentina, no Paraguai, na Bolívia, no Peru, na Colômbia, em Cuba...


Folha - O senhor defende a realização de um exame para que formandos em medicina possam exercer a profissão?
Ramires
- Defendo. Se não é possível brecar as escolas, então, que se faça um exame de ordem à semelhança do que ocorre no direito. É preciso acabar com a demagogia. Não dá para fingir que um terço da população vai ser advogado, um terço médico e um terço engenheiro. Isso é uma aberração. Há cidades do interior, pequenas, que têm três faculdades de medicina. Por quê? Porque existem três universidades que disputam mercado, e possuir faculdade de medicina é um chamariz. Não interessa se é uma faculdade ruim, mal instalada, sem professores. Não há gente formada para ensinar em todas essas faculdades de medicina. Então, apanham-se médicos, muitas vezes sem formação educacional adequada, e eles passam a dar aula. E daí a corrida pelo doutorado, pelo mestrado. Como se o título de mestre ou o título de doutor fosse um título encomendado para a necessidade. Olha, eu preciso tirar o título de doutor porque eu fui contratado pela faculdade tal e, se eu não tirar até dia tal, eles vão me mandar embora. Eu preciso ser pelo menos mestre para a faculdade ter o reconhecimento do MEC. É uma lástima. Esse é um país que não enxerga o seu futuro, pelo menos nessa área.


Folha Como o senhor vê o imbróglio dos planos de saúde?
Ramires
- Os planos de saúde são necessários? São, sem dúvida. É um projeto complementar ao sistema público, atingindo uma outra faixa de necessidade e que deve existir. Só que deve existir dentro de uma organização. E o que ocorre com os planos de saúde também está relacionado à falta de organização do sistema público. Quando você tem um sistema organizado de tal forma que o indivíduo pode transitar livremente para onde ele quer, você já tem grande parte desse sistema com problemas. Não dá para o cidadão entrar no sistema procurando de cara um especialista. A grande maioria dos problemas, 80%, 90%, pode ser resolvida pelo generalista. O custo do especialista, que trabalha de outra forma, com exames mais sofisticados, é muito maior. Os planos de saúde sofrem com isso. O custo acaba sendo alto na investigação dos pacientes. Aí é o cachorro correndo atrás do rabo. Como não têm recursos, pagam pouco. E porque pagam pouco, gasta-se muito com demandas desnecessárias.
E, no meio, o cidadão tem de arcar com os reajustes de mensalidade para acompanhar o gasto. Por quê? A inflação na área de saúde é muito maior do que a inflação real do país, pois você precisa pagar em dólar pelo incremento tecnológico.
E, como os planos remuneram mal a consulta, acabam contribuindo para a chamada indústria dos exames. O médico tem de dar atenção ao doente. Tem de escutar. Mesmo que seja um montão de baboseiras, é sua obrigação. Se o médico perde algum tempo com o paciente, vai diminuir o custo, porque você vai conseguir resolver a maior parte dos problemas com menos recursos. Agora, por R$ 20, é mais fácil o médico dizer: eu entendi tudo; faça essa lista de exames e a traga aqui. Então, vem aquele montão de exames, 80% desnecessários.


Folha - Alguém se beneficia com essa desorganização. Quem?
Ramires - Quem está do outro lado. Quem fez o exame acaba se beneficiando. Quem vende o equipamento também.


Folha - E os genéricos, como o senhor vê a sua implantação? Foi um avanço? Poderia ter sido melhor? 
Ramires - Respeitando-se as patentes, o genérico tem que ser implantado. Mas segundo determinadas regras. Antes de mais nada, as indústrias que fazem os genéricos estão preparadas? Existe um certo conceito de que o genérico é uma coisa fácil de ser feita. Você compra o sal do medicamento, pega uma cápsula, abre e joga lá a quantidade que você precisa de pozinho, fecha a cápsula e o genérico está pronto. Se todo medicamento fosse assim, então, por que se gasta tanto para fazer drágeas ou para fazer comprimido, para escolher o veículo mais adequado para se ligar àquele sal? É que existe uma coisa que se chama biodisponibilidade, isto é, quanto do medicamento vai estar disponível [na corrente sangüínea] se você ingerir, digamos, 10 mg. Eu posso pegar remédios de várias companhias, feitos com o mesmo sal, e eles apresentarão biodisponibilidade diferente. Por isso a indústria precisa estar adequada. Na minha opinião, o genérico é uma grande oportunidade para trazer a química fina para o país e parar com esse negócio de ficar importando o sal de qualquer lugar.
É difícil de entender como um país como o Brasil, que não tem tradição farmacêutica, de repente triplica ou quadruplica o número de indústrias farmacêuticas. Será que era tudo latente? Se você olhar bem, verá que há problemas até para encontrar profissionais. Se já não existem farmacêuticos para todas as farmácias, como podem existir para a indústria também?


Folha - O senhor toma medicamento genérico ou só de marca?
Ramires - Eu acho que existem bons genéricos. Agora, se a pergunta é se se pode tomar indiscriminadamente, de qualquer fábrica, então, não, eu não tomo.


HÉLIO SCHWARTSMAN
DA EQUIPE DE EDITORIALISTAS

 

Fonte: Folha de São Paulo - Cotidiano - 26/07/2004

 


 

Voltar

 
 Fale com o Cardiol.br Sociedade Brasileira de Cardiologia, 1996 - 2009, Todos os direitos reservados